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domingo, 30 de dezembro de 2012

A importância e os deveres dos mestres do açúcar nos primórdios da colonização na Capitania de São Vicente

O primeiro produto importante que a Capitania de São Vicente, fundada por Martim Afonso de Sousa, forneceu ao comércio com os mercados europeus foi o açúcar. Nisso foi ela semelhante a várias outras Capitanias no Brasil.
Para assegurar que a cana-de-açúcar seria corretamente moída e aproveitada, produzindo um açúcar de boa qualidade, não bastavam engenhos bem equipados, ou mão de obra (quase sempre escrava) para manter as máquinas em funcionamento. Era preciso sempre contar com um verdadeiro especialista, o "mestre do açúcar", um homem livre devidamente qualificado para sua ocupação, que, como se verá, precisava ser pessoa confiável e honesta, devidamente juramentada diante da Câmara, aliás condição indispensável ao exercício de seu trabalho. É o que nos diz Frei Gaspar da Madre de Deus, em suas Memórias Para a História da Capitania de São Vicente:
"Tanto apreço faziam os antigos da lavoura de canas, e tão necessárias julgavam a perícia e boa consciência dos mestres e purgadores do açúcar, que os provedores-mores davam provisão a um homem inteligente para examinar os ditos oficiais, antes de entrarem a exercitar seus ministérios, e a Câmara os obrigava a irem nela jurar, que não prejudicariam aos donos, assim na repartição como na purgação do açúcar, nem consentiriam que pessoa alguma levasse melado ou caldo, e outrossim que aproveitariam tudo quanto se fizesse." (*)
É preciso lembrar, para bom entendimento do trecho acima citado, que eram poucos os engenhos, e muitos os lavradores que cultivavam a cana. Disso seguia-se que cada lavrador devia mandar a cana que produzia para que fosse moída em um engenho que não era seu. Portanto, era fundamental que houvesse um procedimento honesto da parte dos mestres do açúcar, para que ninguém fosse lesado no açúcar que deveria receber, ao final do complexo processo de produção de se realizava nos engenhos.

(*) MADRE DE DEUS, Frei Gaspar da. Memórias para a História da Capitania de São Vicente, Hoje Chamada de São Paulo, do Estado do Brasil. Lisboa: Typografia da Academia, 1797, p. 65.


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domingo, 29 de abril de 2012

Trabalhadores livres nos engenhos de açúcar do Brasil Colonial

Trata-se de um conceito popularmente difundido: o trabalho nos engenhos de açúcar do Brasil colonial era feito por escravos, o que, bem entendido, significa cativos do sexo masculino. Ora, como já se demonstrou anteriormente neste blog, muito do trabalho de um engenho era feito por escravas, tanto na lavoura de cana como nas demais instalações de fabricação do açúcar, de modo que, por nenhuma maneira, deve-se pensar que eram as mulheres cativas restritas aos trabalhos domésticos na casa-grande (¹).
Além disso, é preciso dizer que, mesmo sendo cativa a maior parte da mão de obra empregada nos engenhos, havia determinadas funções que eram, habitualmente, exercidas por trabalhadores livres, contratados por um salário fixo. Pelo menos é o que se depreende do que escreveu o Padre Antonil (²), em Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas:
"Servem ao senhor do engenho em vários ofícios, além dos escravos de enxada e de foice, que têm nas fazendas e na moenda, e fora os mulatos e mulatas, negros e negras de casa ou ocupados em outras partes, barqueiros, canoeiros, calafates, carapinas, carreiros, oleiros, vaqueiros, pastores e pescadores. Tem mais cada senhor destes necessariamente um mestre de açúcar, um banqueiro e um contrabanqueiro, um purgador, um caixeiro no engenho e outro na cidade, feitores nos partidos e roças, um feitor-mor do Engenho, e para o espiritual, um sacerdote seu capelão, e cada qual destes oficiais tem soldada." (³)
Vale explicar que a expressão "tem soldada" significa: recebe salário.
Alguns dos ofícios mencionados podiam, eventualmente, ser exercidos por um escravo, mas, para tanto, era preciso dispor de algum que fosse devidamente capacitado para a função. Vê-se, pois, o quanto era complexo, para a época, o empreendimento de um engenho açucareiro, não só pela necessidade de amplas terras cultiváveis, instalações e maquinário, como também pelo número de trabalhadores, quer escravos, quer livres, com os quais era preciso contar.

(1) Veja, sobre o trabalho feminino nos engenhos coloniais de cana-de-açúcar, a série "O trabalho das escravas nos engenhos de açúcar".
(2) Sobre André João Antonil, veja a postagem "Antonil e a vida diária em um engenho de açúcar no Brasil Colonial".
(3) ANTONIL, André João (Giovanni Antonio Andreoni). Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, p. 2.


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