quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Considerações sobre a Independência do Brasil e de seus vizinhos

"Este ano parece que remoçou o aniversário da Independência. Também os aniversários envelhecem ou adoecem, até que se desvanecem ou perecem. O dia 7 por ora está muito criança."
                                  Machado de Assis, História de Quinze Dias, 15 de setembro de 1876

"Grito do Ipiranga? Isso era bom antes de um nobre amigo, que veio reclamar pela Gazeta de Notícias contra essa lenda de meio século."
                                   Machado de Assis, História de Quinze Dias, 15 de setembro de 1876


Sem entrar em discussões sobre a historicidade do assim chamado "Grito do Ipiranga", há que se reconhecer que, no estabelecimento da data da independência de muitos países, existe um fator de arbitrariedade. Isso acontece porque, na esmagadora maioria dos casos, a independência é resultado de um longo processo, frequentemente conflituoso (pela disparidade dos interesses em jogo) e não a consequência de um ato isolado, por mais importante que se reconheça.
Se o "Grito do Ipiranga" é datado de 7 de setembro de 1822, o reconhecimento formal da independência do Brasil só aconteceu, por parte da antiga Metrópole, Portugal, em 29 de agosto de 1825. Mesmo no Brasil, há, por exemplo, na Bahia, a comemoração da data de 2 de julho de 1823, conhecida exatamente como "Independência da Bahia".
Por que, então, sete de setembro?
A opção por essa data tem de ser entendida dentro de um cenário maior, aquele relacionado à empreitada de legitimar como imperador, em todo o vastíssimo e diversificado território brasileiro, um jovem português, filho da dinastia europeia que reinava na ex-Metrópole. É nesse quadro que fazia sentido a escolha de um momento que tinha todos os ingredientes necessários à exaltação da figura de D. Pedro I.
Neste selo da República Argentina,
vê-se o retrato de San Martín, um dos
líderes da independência na
América Espanhola
Outro aspecto interessante é que a maioria dos países da América do Sul (inclusive o Brasil), acabou por tornar-se independente dentro do contexto da expansão do pensamento iluminista e das guerras napoleônicas, ou seja, nas primeiras décadas do século XX, não devendo ser subestimada a influência da recentemente conquistada independência das treze colônias inglesas da América do Norte. Mas há exceções: Suriname e Guiana, cujas independências datam da segunda metade do século XX. Desse modo, cada país independente da América do Sul escolheu para sua data nacional aquela que parecia mais relevante, não sendo, necessariamente, a da data de reconhecimento formal da independência em relação à sua anterior e respectiva Metrópole (o que, em se tratando da chamada "América Espanhola", só veio a ocorrer, na maioria dos casos, muitos anos mais tarde).
Com o fim de elucidar essa questão, vale a pena considerar as datas oficiais de independência (comemoradas) e os eventos a que estão associadas, nos países independentes da América do Sul - os vizinhos do Brasil, portanto:

Argentina - 9 de julho de 1816: Proclamação da Independência em San Miguel de Tucumán.

Bolívia - 6 de agosto de 1825: Declaração de Independência, recebendo o país, inicialmente, o nome de República de Bolívar, já que seu primeiro governante enquanto nação independente foi Simon Bolívar.

Chile - 18 de setembro de 1810: Formação da primeira junta nacional de governo.

Colômbia - 20 de julho de 1810: É, por assim dizer, um marco inicial da independência da Colômbia, que resultou de um processo extremamente complexo. Um confronto entre espanhóis e criollos (brancos nascidos na América) acabou por conduzir à deposição do vice-rei, representante do poder espanhol na colônia. A data de 20 de julho não é a única no calendário civil colombiano relacionada aos acontecimentos do processo de independência.

Equador - 10 de agosto de 1809: É outro caso em que há mais de uma data importante associada à independência; entretanto a formação da chamada Junta de Quito, em 10 de agosto de 1809, é tida como primeiro passo importante rumo à separação efetiva.

Guiana - 26 de maio de 1966: Data oficial da independência (do Reino Unido). Entretanto, é feriado nacional importante o que comemora a instituição da República em 23 de fevereiro de 1970.

Paraguai - 14 de maio de 1811: Marca o início do movimento militar de luta pela independência do Paraguai, que acabou por afastar do poder o governador que representava a autoridade espanhola.

Peru - 28 de julho de 1821: É a data da proclamação da independência, sob a liderança de San Martín. Como na maioria dos casos, a independência efetiva foi um processo trabalhoso e demorado.

Suriname - 25 de novembro de 1975: É a data da independência em relação à Holanda.

Uruguai - 25 de agosto de 1825: Assinala a data da declaração de independência, separando-se do Brasil.

Venezuela - 5 de julho de 1811: É, também, a data da declaração de Independência, que somente seria reconhecida pela Espanha muito tempo depois.


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terça-feira, 30 de agosto de 2011

Uma receita inusitada de mingau

Mingau, quem não sabe? É aquela comidinha molenga, preparada geralmente para a alimentação de crianças pequenas. Pode ser recomendável também para adultos que, por estarem doentes, não consigam ingerir alimento sólido. Claro, há adultos perfeitamente saudáveis que também apreciam, é só uma questão de gosto. Pode-se fazer mingau com uma variedade de ingredientes, a critério de quem o prepara, mas este de hoje é, não só inusitado, como explica a própria origem da palavra.
Vamos por um instante ao século XVI, quando nosso já conhecido Hans Staden, em sua segunda viagem ao Brasil, acabou prisioneiro dos tupinambás.
Pois bem, a ideia dos tupinambás era que seu prisioneiro fosse homenageado com uma grande festança, na qual seria... devorado. Entretanto, Hans Staden conseguiu ir retardando o tal banquete, até ser finalmente resgatado, podendo retornar à Europa. Enquanto isso, foi fazendo suas observações sobre o modo de vida de seus "hospedeiros", que mais tarde relatou em um livro (¹).
O que agora veremos é o que tudo isso tem a ver com mingau.
Tupinambás em festa, preparando
e servindo "mingau" (³)
Hans Staden observou que as índias, ao prepararem por cozimento qualquer comida, fosse de carne ou peixe, tinham o costume de sempre adicionar pimenta verde, deixando tudo no fogo até que um caldo se formasse. A esse caldo, com aspecto mais ou menos de uma sopa, é que se dava o nome de mingau, sendo bebido sempre em cuias feitas com as cascas de um fruto nativo, a purunga ou porongo. Até aqui, nada exageradamente estranho, não?
Mais adiante em sua narrativa, Hans Staden conta como era sacrificado o prisioneiro que alimentaria a tribo. O encarregado de abatê-lo batia em sua sua cabeça com uma pesadíssima maça (²), o que resultava em partir o crânio, fazendo partes dos cérebro saltarem para fora. Continue a ler!
Em seguida, as mulheres arrastavam o corpo para próximo do fogo, onde era devidamente esquartejado para que, das partes, se fizesse um tipo de churrasco, a que se chamava, segundo Hans Staden, Mockaein (talvez moquém).
E o mingau? Ora, os intestinos eram separados, deles sendo feita uma sopa, o famoso mingau, que se usava servir às mulheres e crianças.

(1) Zwei Reisen nach Brasilien, publicado em Marburg, c. 1557.
(2) Arma indígena, semelhante a uma clava.
(3) Imagem de acordo com a edição de Marburg (editada para facilitar a visualização neste blog).


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domingo, 28 de agosto de 2011

O que se fazia com o bagaço da cana nos engenhos coloniais

Há um certo consenso de que a fase inicial da colonização do Brasil se fez sem muito cuidado quanto à conservação dos recursos naturais. Pero Vaz de Caminha, em seu relatório sobre a nova terra encontrada, escreveu: "As águas são muitas; infinitas", e, "os arvoredos são muitos e grandes, e de infinitas espécies". Toda essa fartura, ainda mais espantosa aos olhos de quem vinha de Portugal, territorialmente tão pequeno, pode ter até parecido inesgotável. Há quem relate que árvores inteiras eram derrubadas apenas para facilitar a colheita de uns poucos frutos.
Essa atitude descuidada, no entanto, não tardaria a evidenciar seus péssimos resultados, de modo que já no século XVII providências foram tomadas no sentido de impedir a construção de engenhos de cana-de-açúcar muito próximos uns dos outros, pois poderia faltar madeira para abastecê-los (¹). E, ao a Coroa portuguesa enviar seus representantes ao Brasil, nas últimas décadas do mesmo século, já se lhes fazia a recomendação de que zelassem pela conservação das matas, pois o pau-brasil, observava-se,  ia desaparecendo de áreas onde fora abundante.
Porém, não deve imaginar o leitor que uma política baseada em "reduzir, reutilizar, reciclar" estivesse a caminho. Longe disso! Exemplificando o quanto a questão ambiental era, sob muitos aspectos, ainda ignorada, basta considerar o que era feito do que sobrava no processo produtivo açucareiro - o bagaço da cana-de-açúcar.
Para compreender o que ocorria, será bom interrogar quem tudo viu por si mesmo, o jesuíta André João Antonil (²). Além de investigar o assunto, registrou todo o procedimento habitual na produção de açúcar em Cultura e Opulência do Brasil Por Suas Drogas e Minas. Tal era a precisão do relato que o governo luso, depois de uma breve permissão para que a obra circulasse, mandou apreendê-la e destruí-la, pelo receio de que viesse a facilitar o trabalho de eventuais concorrentes na produção de açúcar, além, é claro, de excitar a cobiça de outras potências. Mas vamos ao que disse Antonil.
Ao tratar do trabalho que se fazia na parte mais perigosa de um engenho, a moenda, Antonil explica que havia pelo menos uma escrava encarregada de remover o bagaço de cana, após a moagem:
"... e outra finalmente para botar fora o bagaço, ou no rio, ou na bagaceira, para se queimar a seu tempo. E se for necessário botá-lo em parte mais distante, não bastará uma só escrava, mas haverá mister outra, que a ajude: porque de outra forma não se daria vazão a tempo, e ficaria embaraçada a moenda." (³)
Fácil de compreender, não é, leitor? Jogava-se, despreocupadamente, todo o bagaço "no rio", ou, "na bagaceira, para se queimar a seu tempo".
Havia, apesar disso, uma terceira opção. Posteriormente, na mesma obra, esse padre, em um curioso jogo de personificação, tem a ideia de demonstrar que a doce cana-de-açúcar, para produzir o que dela se esperava, era brutalmente torturada, ao longo do processo que ia do corte, nos canaviais, ao descarte do bagaço:
"Levam-se assim presas, ou nos carros, ou nos barcos à vista das outras, filhas da mesma terra, como os réus, que vão algemados para a cadeia, ou para o lugar do suplício; padecendo em si confusão, e dando a muitos terror. Chegadas à moenda, com que força e aperto, postas entre os eixos, são obrigadas a dar quanto têm de substância? Com que desprezo se lançam seus corpos esmagados, e despedaçados ao mar? Com que impiedade se queimam sem compaixão no bagaço?" (⁴)
Eis aí como sabemos que além de serem queimados ou lançados nos rios, os "corpos esmagados e despedaçados" podiam, também, acabar indo mar afora, pelas águas dos "mares verdes do Brasil", fosse porque se entendia que o bagaço, seguindo o curso dos rios chegaria, inevitavelmente, ao mar, seja porque, de fato, havia vários engenhos coloniais cuja localização era bem próxima ao Atlântico, até porque, naqueles dias de difícil transporte, era uma grande vantagem para os exportadores de açúcar que suas propriedades não estivessem longe dos portos.

(1) Veja, sobre este assunto, a postagem: O desmatamento provocado pela agricultura no Período Colonial.
(2) Sobre a real identidade de André João Antonil veja a postagem: Antonil e a vida diária em um engenho de açúcar no Período Colonial.
(3) ANTONIL, André João. Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: 1711, p. 55.
(4) Ibid., p. 103.


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quinta-feira, 25 de agosto de 2011

N. Sra. da Candelária - sem exagero, uma bela igreja de Itu

Era o ano de 1825. O jovem desenhista francês Hércules Florence chegava a Itu, encarregado de antecipar os preparativos para a expedição científica comandada pelo Barão de Langsdorff, na época Cônsul da Rússia no Brasil, que deveria partir, desde Porto Feliz, descendo o rio Tietê rumo ao interior do Brasil. A despeito de andar muito ocupado em suas atribuições, H. Florence foi fazendo observações que hoje são uma fonte preciosa de informação sobre os lugares pelos quais passou.
Voltando ao fato de que se encontrava ele em Itu, anotou:
"Há em Itu um convento de franciscanos. A matriz, ornada com simplicidade, se bem pequena e exteriormente de pouca arquitetura, é a melhor de toda a província, depois da capital." (*)
Sobre o convento de franciscanos seria melhor dizer havia, isso porque um incêndio o destruiu completamente em 1907. Restou apenas, como recordação, a grande cruz de pedra, que ainda assinala o lugar. Porém, quanto à Matriz de Nossa Senhora da Candelária, construção do século XVIII, lá está ela, ainda que tenha passado por sucessivas reformas, e agora por uma restauração. Com isso, leitor, pode-se julgar se Hércules Florence fez um relato conveniente dessa igreja ou se, picado pelo mosquito do exagero, nativo daquelas paragens... exagerou.
Quem lê esta postagem terá, nas fotos seguintes, alguns elementos para firmar seu próprio juízo, concordando ou não com o viajante francês.

1. Fachada da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Candelária:


2. Vista do interior da igreja:


3. Capela lateral antiga, como se pode ver pelo estilo arquitetônico:


4. Outra capela lateral (mais recente):


5. Ao ser efetuada a restauração, descobriu-se que pinturas posteriores haviam encoberto a original, que passa por recuperação. Nesse detalhe, pode-se ver um trecho retratando a história bíblica do "sacrifício de Isaque", quando o patriarca Abraão é impedido, pela intervenção de um anjo, de sacrificar o filho:


6. A igreja atual tem vitrais bem interessantes. Abaixo está um deles:


7. Finalmente, ao deixar a igreja pela porta principal, o visitante pode ver este antigo entalhe na madeira:


(*) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 17.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Papagaios não eram maus com arroz

Conforme expliquei na postagem anterior, o Brasil foi, nos primeiros tempos da colonização, conhecido como "Terra dos Papagaios", isso porque araras, periquitos e, naturalmente, papagaios, encantavam os recém-chegados europeus por sua beleza e pela capacidade de repetir palavras.
Entretanto, logo os colonizadores descobriram um uso bem específico para essas aves - especialidade culinária - uso esse que veio a prolongar-se por séculos. Pode parecer horripilante, mas é isso mesmo (embora eu me pergunte por que detestamos essa ideia e quase todos aceitamos a matança de outros animais, dos quais se diz "criados para abate"). E, se o que estou dizendo chega a parecer demasiado absurdo para ser verdade, vou citar uma série de pequenos documentos históricos que põem fora de qualquer dúvida essa questão.
O Conde de Azambuja, Dom Antônio Rolim, obrigado por dever de ofício a "passar às minas" do Cuiabá em 1751, deixou, em seu cuidadoso relatório da monção da qual participou, a seguinte observação:
"De 11 de agosto por diante comecei a ter caça; e depois poucos foram os dias em que me faltou. Patos bravos, maiores e mais gostosos do que os do reino, e outra casta de pássaros a que chamam jacus, do tamanho de perdizes, e com alguma semelhança no gosto. Em certas paragens muita quantidade de papagaios, os quais não são maus com arroz." (¹)
Note, leitor, papagaios "não são maus com arroz"...
Outro que menciona o dito costume de devorar papagaios e outros psitacídeos é o Padre Ayres de Casal, em sua Corografia Brasílica, salientando, para cúmulo, que todos "têm boa carne":
"Há vinte e tantas castas de papagaios, a contar do mais pequeno periquito até a Arara: todas têm boa carne, com especialidade o juru; os que compõem a última classe são de três castas: ararunas, que são de todo azuis, Canindés, também azuis por cima com a barriga doirada e outras, que têm a parte inferior e a cabeça encarnada."
Finalmente, outro que participou de monção rumo ao interior do Brasil, dessa vez com propósitos científicos, foi o desenhista francês Hércules Florence que, como outros, também anotou em seu diário o mesmo costume de incluir papagaios na dieta dos monçoeiros:
"Mataram-se muitas jacutingas, espécie de galináceos, araras e papagaios, pássaros que figuraram na nossa mesa como caça deliciosa, principalmente a primeira. O que porém leva as lampas em sabor e delicadeza são os patos-d'água." (²)
Como deve ter observado o leitor atento, desta vez as pobres aves foram adjetivadas como "caça deliciosa".
Todavia, o mesmo Hércules Florence parece nos dar a chave para entender, ao menos em parte, como é que os colonizadores europeus chegaram à conclusão de que psitacídeos eram aves comestíveis. Descrevendo uma aldeia de índios apiacás, registrou:
"Havia ali cerca de oitenta araras que esses índios criavam por causa das belas penas e da carne: alcandoravam-se na cumeeira, na choupana e nas árvores vizinhas. Voavam para a floresta, mas voltavam e deixavam-se apanhar e levar para onde se quisesse." (³)
Apenas para advertência de quem tiver um apetite verdadeiramente pantagruélico, a maioria dos papagaios e seus parentes nativos do Brasil encontra-se hoje na lista de animais em risco de extinção e, por isso, não pode ser abatida. Ainda bem!

(1) TAUNAY, Affonso de E. História das Bandeiras Paulistas 3ª ed., vol. 3. São Paulo: Melhoramentos, 1975, p. 201.
(2) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 35.
(3) Ibid., p. 220.


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domingo, 21 de agosto de 2011

Terra dos papagaios, dos periquitos, das araras...

Os jovens estudantes brasileiros sabem muito bem que, nos primórdios da presença portuguesa na América, o Brasil recebeu outros nomes, derivados do desconhecimento geográfico inicial do território: foi primeiro "Ilha de Vera Cruz", depois "Terra de Santa Cruz". O que em geral poucos sabem é que um nome popular para o Brasil, naqueles tempos, foi "Terra dos Papagaios". Decorreu isso, naturalmente, do encanto que a quantidade e diversidade de psitacídeos provocou nos primeiros colonizadores.
Podemos verificar esse fato em escritos da época. Pero Vaz de Caminha, em sua famosíssima Carta, relatando o "achamento" do Brasil (segundo sua própria expressão), conta que o capitão Pedro Álvares Cabral trazia consigo, em sua embarcação, um papagaio pardo - aliás, nada mais típico dos grandes navegantes, a ponto de virar estereótipo. Pois bem, o tal papagaio foi mostrado aos nativos do Brasil e... Deixemos que conte o próprio Caminha:
"Mostraram-lhes um papagaio pardo que o Capitão traz consigo; tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como se os houvesse ali."
É claro que havia papagaios, e não só eles, mas toda a gama de seus aparentados, como ainda prossegue o escrivão, dirigindo-se ao rei D. Manuel, ao dar conta das primeiras "relações comerciais" entabuladas com os nativos:
"Resgataram lá por cascavéis(¹) e outras coisinhas de pouco valor, que levavam, papagaios vermelhos, muito grandes e formosos, e dois verdes pequeninos (²), e carapuças de penas verdes, e um pano de penas de muitas cores, espécie de tecido assaz belo, segundo Vossa Alteza todas estas coisas verá, porque o Capitão vo-las há de mandar, segundo ele disse."
E ainda pondera:
"Enquanto andávamos nessa mata a cortar lenha, atravessavam alguns papagaios essas árvores; verdes uns, e pardos, outros, grandes e pequenos, de sorte que me parece que haverá muitos nesta terra."
Estava certíssimo o escrivão Caminha. E tantos havia que, em pouco tempo, tornaram-se um pequeno ramo de comércio. Quem porventura vinha ao Brasil tratava de levar consigo, no retorno à Europa, algumas dessas belas aves, pois a venda por bom preço era garantida.
No Livro da Nau Bretoa, embarcação comercial que veio ao Brasil em 1511 com o objetivo de levar madeiras e outras mercadorias, há o registro de que o capitão, o escrivão, o piloto, o despenseiro, vários marinheiros e um grumete levaram do Brasil um bom número de papagaios, além de outras aves e pequenos primatas. Escrupulosamente, o Livro registra o valor estimado de todos os animais e, como não poderia deixar de ser, o imposto devido por eles a El-Rei.
Desnecessário é acrescentar, leitor, que hoje há muitas espécies dessas criaturas falantes naturais do Brasil que são tidas como ameaçadas de extinção - não pela admiração que causaram no passado, mas pela exploração desenfreada (devido às penas) e pela depauperação dos habitats. Isso além de um outro motivo, conforme veremos na próxima postagem.

(1) Não cobras, evidentemente, mas guizos.
(2) Entende-se que Caminha referia-se, aqui, a araras e periquitos.


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quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Estação Ferroviária de Capivari: como muitas outras, merece ser restaurada

Edifício central da Estação
Ferroviária de Capivari - SP
Para muitas cidades, em especial as pequenas, a estação ferroviária foi, até por volta dos anos cinquenta (séc. XX), muito mais que um local de chegada e partida de trens. Com os trens vinham os jornais da Capital, vinham as mercadorias que abasteciam o comércio, vinham os parentes que se visitavam periodicamente. Era na estação ferroviária que funcionava o telégrafo que, além de contribuir para assegurar o funcionamento adequado da própria ferrovia, era também o instrumento através do qual as notícias podiam chegar mais depressa e, daí, passar de boca em boca entre a população da localidade.
Como se sabe, muitas das antigas ferrovias foram desativadas em décadas mais recentes, e os prédios das estações ferroviárias receberam outros usos. Em alguns casos o reconhecimento da importância histórica dessas construções levou à sua utilização como museus, centros culturais, bibliotecas. É desagradável, no entanto, quando se vê que algumas estações estão, literalmente, em ruínas.
Uma busca na lista de postagens deste blog indicará a existência de vários textos relativos à preservação da memória ferroviária. Seguindo essa linha de trabalho, estive um dia desses em Capivari, com a intenção de fotografar a pequena estação ferroviária de estilo britânico, que havia pertencido à Companhia Estrada de Ferro Sorocabana. As fotos que ilustram esta postagem darão conta ao leitor, sem a necessidade de muitas palavras, do que pode ser visto atualmente.

Estação Ferroviária da cidade de Capivari - SP
Decepcionante? Sim, mas nada incomum. Ocorre que, enquanto fazia as fotos, passou por ali um senhor que, parando para conversar, identificou-se como um trabalhador aposentado que, em idos tempos, transportava açúcar demerara até a estação para embarque. As informações que apresento, daqui por diante, são devidas à sua simpática contribuição.
Plataforma de embarque da
Estação Ferroviária de Capivari - SP
Explicou-me que há algum tempo havia funcionado na estação uma entidade filantrópica que já deixara o local (a placa ainda está lá). Andando pelos trilhos que ainda restam, mostrou-me uma ponte que fora parte da ferrovia e que, desativada e desmontada, fora jogada ali ao lado, onde, aliás, ainda está, quase completamente coberta de mato (pergunto-me por que, ao menos por respeito ao ambiente, não reciclam ou reutilizam o material). Ainda em pé, mas em muito mau estado, a cabine usada pelo guarda sinalizador tem abrigado usos impublicáveis. E a estação, cuja restauração é frequentemente prometida, continua lá, em estado mais que precário, à espera de que os trabalhos finalmente comecem ou que a mão do tempo acabe dando o golpe de misericórdia.
Antes que nos despedíssemos, meu interlocutor, com uma simplicidade não desprovida de bom senso e sabedoria, ainda acrescentou:
"Meus filhos sempre me falam: Pai, o senhor só tem coisas velhas pra mostrar? E eu respondo: Eu tenho coisas velhas pra mostrar, mas vocês terão o quê? Não se conserva mais nada..."
Com suas palavras, só posso concluir a postagem. O "mato grosso do Capivari", de que tratei na postagem anterior, não irá voltar nunca mais, mas essa estaçãozinha pode bem ser restaurada. Espero que seja, o quanto antes.

Restos de uma antiga ponte da Ferrovia Sorocabana em Capivari - SP

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