quinta-feira, 31 de maio de 2012

O Caminho Velho das Minas

O "Caminho das Minas", era a rota que conduzia às Gerais os exploradores de ouro que vinham do Rio de Janeiro e, como é óbvio, era por ele, em sentido inverso, que o ouro dos "Reais quintos" saía das minas e seguia para o porto do Rio de Janeiro, de onde se despedia do Brasil, para nunca mais voltar.
O chamado "Caminho Velho" tinha, sob o aspecto da segurança, o grave inconveniente de que o ouro, chegando a Parati, precisava seguir por mar até o Rio de Janeiro, e era justamente neste trecho que a ameaça de um ataque de piratas ou corsários se fazia maior.

Os canhões de Parati (RJ) são uma lembrança dos tempos em que era preciso defender
o ouro das Gerais, que vinha pelo "Caminho Velho", dos eventuais ataques de piratas e corsários.

Podia-se, segundo Antonil, fazer a viagem em uns trinta dias, desde que "marchando de sol a sol", como ele mesmo expressou, coisa que quase ninguém conseguia, ou porque os pés não suportavam, ou porque era necessário dar descanso aos animais de carga. O caminho, propriamente, era o seguinte, segundo alguém que fez a viagem em companhia do Governador Artur de Sá e que depois o relatou ao Padre Antonil:
"Partindo aos 23 de agosto da cidade do Rio de Janeiro foram a Parati. De Parati a Taubaté. De Taubaté a Pindamonhangaba. De Pindamonhangaba a Guaratinguetá. De Guaratinguetá às roças de Garcia Rodrigues. Destas roças ao Ribeirão. E do Ribeirão com oito dias mais de sol a sol chegaram ao Rio das Velhas aos 29 de novembro, havendo parado no caminho oito dias em Parati, dezoito em Taubaté, dois em Guaratinguetá, dois nas roças de Garcia Rodrigues e vinte e seis no Ribeirão, que por todos são cinquenta e seis dias. E tirando estes de noventa e nove, que se contam desde 23 de agosto até 29 de novembro, vieram a gastar neste caminho não mais que quarenta e três dias." (*)
Parece-lhe estranho que se dessem tantas voltas, ao invés de seguirem diretamente às Gerais? Há pelo menos duas razões para isso, que são:
a) Não se conhecia o interior do Brasil tão bem a ponto de permitir uma rota menos complicada, de modo que, partindo de Parati, buscava-se encontrar a rota dos paulistas, essa já mais amplamente percorrida;
b) Evitavam-se áreas de relevo demasiadamente acidentado, pois os meios de transporte disponíveis na época não suportariam tal incômodo. 

(*) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio). Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, p. 163.


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terça-feira, 29 de maio de 2012

Ditaduras e ditadores

"... às vezes sucede entre certos políticos, aos quais tanto cega a paixão, que julgam bem da pátria o que é apenas satisfação dos seus interesses."
                                                                                      F. A. Varnhagen, História Geral do Brasil

Tecnicamente, uma ditadura caracteriza-se pelo exercício do poder, dentro do Regime Republicano, por um indivíduo ou um grupo que não está sujeito a uma Constituição, quer ela simplesmente não exista, quer, apesar de existir, não seja respeitada ou, "no interesse nacional", seja desconsiderada. Um exemplo clássico desse segundo caso é o que ocorreu no Brasil durante a vigência do Ato Institucional nº 5 (¹), cujo texto era, sob esse aspecto, bastante explícito, ao atribuir ao presidente da República a capacidade de atuar sem as limitações constitucionais e sem que suas decisões, dentro do determinado pelo mesmo AI-5, fossem alvo de apreciação judicial, conforme se vê, por exemplo, nos Artigos 3º, 4º e 11:
"Art. 3º - O presidente da República, no interesse nacional, poderá decretar a intervenção nos Estados e municípios, sem as limitações previstas na Constituição.
Art. 4º - No interesse de preservar a Revolução, o presidente da República, ouvido o Conselho de Segurança Nacional, e sem as limitações previstas na Constituição, poderá suspender os direitos políticos de quaisquer cidadãos pelo prazo de dez anos e cassar mandatos eletivos federais, estaduais e municipais.
Art. 11 - Excluem-se de qualquer apreciação judicial todos os atos praticados de acordo com este Ato Institucional e seus Atos Complementares, bem como os respectivos efeitos." (²)
Outras vezes, tenta-se disfarçar a ditadura sob uma aura constitucional, mas a escandalosa concentração de poderes em mãos de um único indivíduo acaba por revelar as reais intenções de quem exerce o poder, conforme facilmente se depreende, por exemplo, da Constituição do Estado Novo (³), na qual se lê:
"Art. 73 - O presidente da República, autoridade suprema do Estado, coordena a atividade dos órgãos representativos, de grau superior, dirige a política interna e externa, promove ou orienta a política legislativa de interesse nacional e superintende a administração do País."
Recomenda-se, a quem tiver maior interesse pelo assunto, a leitura de todo o longo (longuíssimo!) Artigo 74 e também do Artigo 75, nos quais são expostos, respectivamente, as competências e prerrogativas do presidente da República. Impressionam pela abrangência, quando se tem estômago para ler até o final.
De qualquer modo, é bom salientar que, tanto no caso do governo fundado no pressuposto da Constituição de 1937 quanto no dos que se serviram do AI-5, existia, em tese, uma clássica tripartição de Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário), ocorrendo, no entanto, um óbvio deslocamento da força decisória em favor do Executivo, como os trechos já citados evidenciam.



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Ditadura e totalitarismo não são necessariamente sinônimos. O Estado totalitário é aquele no qual o indivíduo, em última análise, existe apenas em função dos interesses dos Estado, para cuja grandeza toda a sua existência deve ser pautada. Por isso, um regime ditatorial pode ser também totalitário (por exemplo, Nazismo e Fascismo), mas há ditadores que exercem um governo apenas personalista, sem a abrangência que o totalitarismo requer. E, nesse caso, os exemplos são tantos, que a lista acabaria longa demais.
É verdade que tem havido ditaduras um tanto ingênuas, enquanto outras são o que há de mais pérfido; algumas são pobres em termos ideológicos, enquanto outras chegam ao auge do refinamento em formalizar a ideologia que lhe constitui sustentáculo. Mas, ao fim e ao cabo, são todas ditaduras, nem mais e nem menos. Pode-se até alegar que este ou aquele ditador fez um bom governo - é ditadura, ainda assim e, face aos valores da democracia, uma usurpação pura e simples dos direitos dos cidadãos.
O que mais impressiona, e talvez revele muito sobre a humanidade, é que sempre há uma parcela significativa de pessoas que não somente apoia ditadores, como ainda entende que a ditadura é o único tipo de governo que deveria existir. Engana-se quem pensa que as massas são sempre e necessariamente coagidas a secundar os atos dos ditadores, embora isso também aconteça: a maioria das pessoas que iam e vão a manifestações públicas em apoio a ditaduras ia ou vai de livre e espontânea vontade. Eis aí um assunto que é verdadeiro festim para psicanalistas voltados ao estudo de comportamentos coletivos. Não chega, pois, a surpreender, que os que exercem o mando ditatorialmente ousem alegar-se não só escolhidos do povo, mas até eleitos de Deus, fazendo gravar essa "predestinação" em selos postais, documentos de caráter oficial, moedas (⁴) e sabe-se lá mais onde.



(1) Entrou em vigor no dia 13 de dezembro de 1968.
(2) Os grifos não pertencem ao documento original.
(3) Entrou em vigor em 10 de novembro de 1937.
(4) É evidente que nem todo mundo que teve o rosto estampado em selos ou moedas foi ou é um ditador - apenas é fato notório que os ditadores parecem ter um especial apreço por essas "homenagens".


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domingo, 27 de maio de 2012

Xenófanes, o homem que ousou questionar os jogos olímpicos da Grécia Antiga

Xenófanes é desses pensadores da Antiga Grécia que pouca gente conhece. Até mesmo sua cidade natal, Cólofon, na Jônia, não é das mais famosas. Melhor dizendo, a fama da cidade mais vem desse filósofo-poeta ou poeta-filósofo (sim, faz diferença!) que de qualquer outra coisa.
Apesar disso, Xenófanes destaca-se por, ao invés de seguir a maioria, ter ousado pensar com a própria cabeça, chegando a questionar uma das práticas mais sagradas entre os gregos da Antiguidade - nem mais e nem menos que os Jogos Olímpicos.
Observando o que se passava entre os competidores vitoriosos, Xenófanes constatou que eram sempre honrados em suas cidades como autênticos heróis, mesmo no caso daqueles que competiam em modalidades nas quais os verdadeiros atletas eram os cavalos, e não exatamente os humanos que os conduziam. Ora, pensou ele, mais vale a sabedoria que a força física, e nem por isso os sábios eram publicamente honrados como os que eram vitoriosos nas disputas empreendidas em Olímpia. E foi além em suas reflexões, perguntando se acaso era por terem as cidades bons corredores ou pugilistas que a administração pública funcionava melhor, ou se a presença de grandes atletas é que fazia prosperarem as colheitas!
Você leitor, deve ter suas próprias respostas a essas questões. Vale, no entanto, considerar que, malgrado os motivos para as dúvidas levantadas pelo pensador jônio, os atletas-heróis ou heróis-atletas (sim, faz diferença...) tinham e têm um papel social de grande importância quando, ao realizarem suas proezas, convencem a multidão de humanos absolutamente comuns de que a superação de limites é possível, mesmo quando tudo o que resta é uma mera superação ilusória, decorrente do identificar-se com um vencedor.
Já os líderes políticos, esses nunca tiveram dúvidas do papel dos grandes campeões em atrair prestígio para governos e desgovernos, fosse isso na Antiguidade, fosse em tempos mais recentes, daí porque a história dos mais destacados eventos esportivos deste planeta está repleta de interferências nada compatíveis com o famoso "espírito olímpico" - uma lista quase intérmina de manipulações, boicotes, atentados, e por aí vai.


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quinta-feira, 24 de maio de 2012

Em busca do ouro: A técnica de extração aurífera usada no Brasil Colonial

Na postagem anterior mencionei o fato de que os métodos de extração aurífera empregados no Brasil Colonial, e mesmo mais tarde, eram extremamente primitivos. Essa observação não vale apenas para a região das Gerais, mas estende-se ao restante da Colônia, como se poderá facilmente notar por este interessante relato de Hércules Florence, feito um pouco depois da Independência, a propósito da mineração em Cuiabá:
"Cuiabá deve sua fundação à grande quantidade de ouro que deu o terreno em que assenta, cujas escavações e buracos atestam hoje quanto foi revolvido. [...]." (¹)
Passa então a descrever como se organizou a ocupação do território do novo eldorado cuiabano (se é que ao que ocorria na época podia dar-se o nome de organização) :
"Reuniram-se logo multidões de aventureiros que formaram novas expedições [...]. O número foi crescendo e com ele aparecendo dissensões e lutas causadas pela avidez em tirar ouro. Então cuidaram de constituir uma espécie de governo e para legalizá-lo mandaram pedir chefe em São Paulo. A colônia, debaixo do nome de Cuiabá, nome dos índios que aí habitavam, fez rápidos progressos, aumentando continuamente com a chegada de novas bandeiras, que, não se satisfazendo mais com o que encontravam, seguiram para diante e foram descobrir, a cem léguas para Oeste, Mato Grosso, donde provém a denominação de toda a província." (²)
Um garimpeiro à procura de ouro, conforme
retratado em um selo postal
dos Correios do Brasil
Vem, por fim, a descrição do método que se empregava na extração do ouro, e que é justamente a informação que desejamos:
"O modo de extrair ouro é o seguinte: fazem-se grandes escavações e transporta-se a terra, à medida que se a vai tirando, para uma área preparada à beira de um rio, córrego ou lagoa em paralelogramo de terra batida e conseguintemente dura, cujos lados são fechados por tábuas, exceto o que encosta à água. O plano é inclinado e o todo se chama uma canoa. Deposita-se a terra que se quer lavar na parte superior e sobre ela lança o trabalhador de contínuo água para que facilmente corra a porção que for mais destacada e leve. Em seguida, depois de repetida a operação, põe ele certa quantidade na beira de uma espécie de alguidar de pau chamado bateia e com um pouco de água imprime ao todo um movimento circular, de modo que de cada vez o monte de terra seja lambido pela água. Se houver ouro, as menores partículas depositam-se no fundo." (³)
Para concluir, quero lembrar a meus leitores que, ao contrário do que ocorria nas Gerais, em Mato Grosso nem sempre havia água abundante para lavagem do ouro, o que tornava o processo mais dificultoso, mas, em todo o caso, a técnica era, em sua base, exatamente a mesma. Não fica, pois, difícil, entender porque o desperdício era grande, já que o ouro explorado era, via de regra, apenas o superficial. É isso que explica o chamado "esgotamento" das minas, que somente viria a ser superado quando a introdução de uma nova tecnologia de prospecção e exploração trouxesse a possibilidade de um melhor aproveitamento das riquezas disponíveis nas jazidas.

(1) FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829. Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 126.
(2) Ibid.
(3) Ibid., pp. 126 e 127.


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terça-feira, 22 de maio de 2012

Somente muito ouro interessava: os "ribeiros de bom rendimento"

O que determinava, nas regiões mineradoras do Brasil Colonial, se uma determinada área devia ou não ser economicamente explorada, era a quantidade de metal precioso obtido em um intervalo mais ou menos curto de trabalho, conforme expressou o Padre Antonil:
"Chamam os paulistas ribeiro de bom rendimento o que dá em cada bateada duas oitavas (¹) de ouro. Porém assim como há bateadas de meia oitava e de meia pataca, assim há também bateadas de três, quatro, cinco, oito, dez, quinze, vinte e trinta oitavas, e mais; e isto não poucas vezes sucedeu na do Ribeirão, na do Ouro Preto, na de Bento Rodrigues e na do Rio das Velhas." (²)
É quase desnecessário lembrar que esse rendimento era relativo à procura de ouro em cursos d'água, o que era comum no Brasil, mas não a única situação possível;  era também relativo aos que procuravam ouro em larga escala, utilizando muitos trabalhadores, e não a faiscadores isolados.
Vejamos agora algumas razões que tornavam o alto rendimento não só desejável como até indispensável àqueles que eram considerados grandes mineradores:

a) O custo de vida nas minas era elevadíssimo, já que não se produzia quase nada localmente, de modo que os gêneros de primeira necessidade vinham de muito longe - quem quiser ter uma ideia dos preços que eram praticados na época pode ver as postagens "O Vestuário Masculino nas Minas Gerais no Início do Século XVIII" e "Os Preços dos Alimentos nas Minas de Ouro do Brasil Colonial no Início do Século XVIII". Deve-se ainda assinalar que um outro fator para o alto custo de vida (secundário, é verdade, mas nada desprezível), foi o gradual desenvolvimento, entre a população, de hábitos que valorizavam o luxo como ferramenta de afirmação social, daí ver-se que o consumo não era centrado apenas em gêneros de primeira necessidade, mas envolvia itens dispendiosos, tanto no que se refere à alimentação como para vestuário em geral.

b) Os escravos, que eram a mão de obra usual, custavam caro, de modo que só a mineração em grande quantidade justificava sua compra.

c) Os impostos cobrados pela Coroa eram bastante elevados.

d) As técnicas de prospecção e extração do ouro eram rudimentares, portanto o ouro devia ser abundante, já que o desperdício acabaria, de qualquer maneira, acontecendo.

A exploração aurífera no Brasil da primeira metade do Século XIX, segundo a 
visão de M. Rugendas (³)

Apesar disso, ou até por isso mesmo, o próprio Padre Antonil afirmou que nem sempre os bons lugares para mineração, quando localizados, eram, como mandava a legislação, comunicados às autoridades competentes. Por quê? Ora, porque cumprindo a lei, a área passava ao controle da Coroa, que efetuava a repartição do terreno nas proporções estipuladas pela lei, com partes destinadas à própria Coroa e ao descobridor da lavra, indo o restante a leilão entre os mineradores interessados. Entende-se, pois, porque é que, não raro, quem tinha a boa sorte de encontrar um local favorável à lavra, guardava silêncio sobre seus achados.
Um pouco mais de um século após a publicação do livro de Antonil, a mineração nas Gerais já estava em franca decadência. Passando por lá, Saint-Hilaire observou:
"Depois de termos andando cerca de duas léguas, alcançamos um vale muito agradável onde corre um riozinho no qual avistamos, sucessivamente, duas fazendas, a da Rancharia e a do Brumado. Devem ter sido importantes outrora mas parecem-me hoje em muito mau estado. Não me foi difícil adivinhar a causa de sua decadência, quando vi pela primeira vez montões de cascalho às margens do rio.
[...].
Montões de pedregulhos atestam o trabalho dos mineradores." (⁴)
  
(1) A oitava equivalia a quase 3,6 gramas.
(2) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio). Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, p. 134.
(3) RUGENDAS, Moritz. Malerische Reise in Brasilien. Paris: Engelmann, 1835. O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(4) SAINT-HILAIRE, A. Segunda Viagem a São Paulo e Quadro Histórico da Província de São Paulo. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, pp. 33 e 34.


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domingo, 20 de maio de 2012

Impostos temporários que se tornavam permanentes

Impostos, contribuições, "donativos", subsídios, taxas - o nome nem importa muito - eram criados tanto pelo Reino quanto pela administração colonial sempre que uma emergência se anunciava, fosse em resultado de alguma catástrofe natural, ou de algum projeto de construção, até mesmo para constituir um dote para uma princesa que se devia casar, ou pura e simplesmente porque os cofres públicos andavam magros demais.
Com o passar do tempo, à medida que o período glorioso das navegações e comércio oriental se distanciava, tornava-se óbvio o empobrecimento do Reino face a outras nações europeias que, superando a fase de apenas transportar e comercializar produtos alheios, lançaram-se ao desenvolvimento do que hoje chamamos economia industrial. Vendo sua modesta produção desvalorizada, não raro o Reino lusitano valia-se da possibilidade, que ainda tinha, de lançar novos impostos sobre sua vasta colônia ultramarina, cuja população, aos poucos, começava a revoltar-se com o fato de ter, em última instância, de trabalhar para o sustento de um sistema claramente obsoleto.
Entretanto, o mais absurdo de tudo isso é que alguns dos impostos supostamente temporários, lançados ainda no período colonial, continuaram a ser cobrados após a independência, de modo que, durante alguns anos, integraram o orçamento do Império. Vem daí pois, a experiência que o Brasil tem com os tais impostos temporários que acabam desenvolvendo a mágica capacidade de se tornarem permanentes. Meus leitores residentes neste País devem ter na memória um caso bem recente!
A mania dos impostos temporários que acabavam permanentes começou cedo. Em 1599, ainda antes que se completasse um século de presença portuguesa na América, votou-se em Olinda uma taxação sobre o vinho comercializado, a ser cobrada apenas pela necessidade de se estabelecerem fortificações (estava já a desenhar-se o cenário de alguma tentativa de ocupação), bem como para garantir a manutenção dos templos (¹). O imposto foi ficando, ficando... até que o que era transitório se impôs de vez.
Malgrado as taxas cobradas para as fortificações, os holandeses vieram e ficaram por vários anos. Quando finalmente deixaram o Brasil, um acordo entre os governos da Holanda e de Portugal estabeleceu que o pequeno reino ibérico pagaria uma indenização aos holandeses. Sim, é isso mesmo! Lá veio novo imposto para cobrir essa despesa, à qual a Coroa não deixou de anexar os custos da constituição de um dote para a filha do rei que deveria casar-se em breve. Tudo isso era para um prazo de dezesseis anos, mas continuou a ser cobrado muito depois, e tem-se uma informação de que ainda figurava no orçamento do Império do Brasil (portanto, após a Independência), no ano de 1830. (²)
De todos os impostos "temporários", porém, os mais famosos são, de longe, o que se instituíram para a reconstrução de Lisboa, a capital do Reino, após o terremoto que a arrasou em 1º de novembro de 1755. Em que resultou tudo isso? Nem é preciso dizer que seguiu-se a cobrança por décadas afora, mesmo após a independência - a despeito de a capital já não ser Lisboa e sim o Rio de Janeiro, o fisco continuou a proceder a arrecadação, que entrava para o orçamento do Império como se  fosse a coisa mais natural deste mundo. (³)
Além de tudo isso, havia ainda os impostos que, criados para um objetivo específico, quase nunca eram realmente usados nessa finalidade. Talvez o melhor exemplo seja o "subsídio literário", instituído durante o período pombalino, com vistas a assegurar o pagamento de professores de primeiras letras. De acordo com a região, incidia sobre a aguardente de cana, ou café, ou outro produto importante na área, com expressivo volume de arrecadação, mas as poucas escolas existentes continuavam a cair aos pedaços, sendo verdadeiro luxo que houvesse, de fato, um mestre-escola, mesmo sem a devida qualificação. Mas isso, afinal, em nada alterava a ação do fisco, já que o imposto era cobrado até mesmo onde não havia nenhum professor. Pelo menos é o que conta o Padre Ayres de Casal, em sua Corografia Brasílica, referindo-se ao Piauí:
"O Subsídio Literário, imposto no gado desta província, é assaz importante, mas em oitocentos e oito (⁴) ainda não havia nela uma cadeira de Primeiras Letras, nem de Latim". (⁵)
Esses fatos, meus leitores, estão já, cronologicamente, muito distantes de nós, mas seu estudo ganha muito interesse quando se quer entender o Brasil de hoje!

(1) Veja-se VARNHAGEN, F. A. História Geral do Brasil vol. 1, 2ª ed. Rio de Janeiro: Laemmert, 1877, p. 396.
(2) Segundo nota de rodapé em VARNHAGEN, F. A. História Geral do Brasil vol. 2, 2ª ed.
Rio de Janeiro: Laemmert, 1877, p. 754:
"Vemo-lo figurar no Orçamento do Império de 1830 (artigos 21 e 22) no valor de vinte e cinco contos."
(3) Veja-se nota de rodapé em 
VARNHAGEN, F. A. História Geral do Brasil vol. 2, 2ª ed. Rio de Janeiro: Laemmert, 1877, p. 978:
"Findos os trinta anos o tributo seguiu igual, até depois da Independência, e figurava ainda na receita em 1831, com uma verba de 56.500$000 réis."
Ou ainda:
"Novos impostos - criados por dez anos, em 1755, cujo rendimento devia ser aplicado, unicamente, na reconstrução da alfândega de Lisboa. Cerca de um século já transcorreu, e este imposto perdura ainda."
SAINT-HILAIRE, A. Segunda Viagem a São Paulo e Quadro Histórico da Província de São Paulo. 
Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 232.
(4) Refere-se ao ano de 1808.
(5) AYRES DE CASAL, Manuel. Corografia Brasílica, vol. 2. Rio de Janeiro: Impressão Régia, 1817, p. 250.


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quinta-feira, 17 de maio de 2012

Araucárias

Pinheiros, de acordo com desenho de Thomas Ender (³)

Chamada popularmente de "pinheiro-do-paraná", a Araucaria angustifolia, pelo que conhecemos através dos relatos de gente que andou pelo interior do Brasil antes do geral desmatamento do centro-sul, já foi uma espécie vegetal muito frequente em áreas dos atuais Estados do Rio de Janeiro, São Paulo, sul de Minas Gerais, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, além, é claro, do Paraná, principalmente nas regiões de maior altitude. Chamava a atenção dos europeus que a observavam por ser um "pinheiro diferente" em sua aparência.
Saint-Hilaire, o naturalista francês, ao descrever a localização de uma casa em que se hospedava, no início da segunda década do século XIX, observou:
"Fica situada num vale, e em frente do declive de uma colina eleva-se, em anfiteatro, um bosque quase que inteiramente composto de araucárias.
Nesta viagem comecei a rever esta árvore nas margens do riacho Brumado, e encontrei-a perto da fazenda do Tanque e de Ibitipoca.
Cresce espontaneamente, em algumas das mais altas montanhas do Rio de Janeiro. Encontra-se novamente aqui, em terreno muito elevado, nos limites das matas e campos, constitui quase que exclusivamente a maioria dos capões nos arredores de Curitiba. Enfim, na capitania do Rio Grande desce até a borda do campo. Parece, pois, haver igualdade de temperatura entre esses diferentes pontos, e a araucária funciona como uma espécie de termômetro." (¹)
O povoamento e a exploração desordenada das matas nativas (²) tornaram as araucárias muito menos numerosas, mesmo em regiões onde essas belas coníferas eram quase onipresentes. É lamentável que esse processo ainda tenha prosseguimento Brasil afora, embora hoje as espécies ameaçadas sejam outras.

Araucárias na região de Poços de Caldas - MG

(1) SAINT-HILAIRE, A. Segunda Viagem a São Paulo e Quadro Histórico da Província de São Paulo. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 41.
(2) Pode parecer um absurdo para os padrões atuais, mas já houve tempo em que o contrato com uma empresa para a construção de uma ferrovia significava, para essa empresa, o direito a explorar livremente a madeira das florestas situadas ao longo do trajeto a ser construído.
(3) O original pertence à Biblioteca Nacional. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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