terça-feira, 15 de maio de 2012

Dez coisas sobre os jogos olímpicos da Grécia Antiga que todo mundo deveria saber

"Cimon foi sepultado nos arredores da cidade, além do caminho chamado Cela, e suas éguas foram enterradas diante de seu túmulo, pois haviam, com ele, sido vencedoras três vezes nos Jogos Olímpicos..."
                                                                                                                                         Heródoto, História

1. Os jogos olímpicos não eram a única competição esportiva na Grécia Antiga. Eram, porém, a mais importante, já que era celebrada em honra de Zeus. Outras competições realizadas eram, por exemplo, os Jogos Ístmicos e os Jogos Pítios.

2. Oficialmente, as primeiras competições consideradas "Jogos Olímpicos" foram realizadas em 776 a.C.. Os Jogos eram usados para a contagem do tempo. Por isso, se você vivesse na Antiga Grécia, possivelmente teria ouvido ou dito algo mais ou menos assim: "Sim, é verdade, aconteceu no terceiro ano da trigésima quinta olimpíada", ou, então: "Quem pode esquecer daquela batalha? Foi no segundo ano da quinquagésima quinta olimpíada!"

3. Durante os jogos respeitava-se uma trégua, para que os gregos dos mais diversos lugares pudessem competir em segurança. Esse assunto era tão sério que o desrespeito à trégua era tido como sacrilégio, já que as competições eram uma festividade religiosa em honra de Zeus Olímpico.

4. Havia, além das competições para homens, algumas (poucas) provas, com finalidades rituais, destinadas a jovens solteiras. As mulheres casadas, sob o pretexto de que davam azar, não podiam entrar, nem mesmo para assistir aos Jogos. Na prática, a razão era outra...

5. As competições esportivas variaram um pouco ao longo do tempo, mas eram basicamente constituídas por corridas, saltos, vários tipos de lutas e provas para condutores de bigas. Competições relacionadas às artes musical e poética eram também realizadas.

6. Aos vencedores concediam-se prêmios importantes, muito além da famosa coroa (que se diz, tradicionalmente, que era de louros, embora Heródoto afirme ser de oliveira). Em sua cidade natal o campeão era honrado como herói, isentado de impostos e sustentado com recursos públicos. Algumas vezes essas honrarias eram extensivas à sua família. Erguia-se uma estátua em sua homenagem e os poetas locais tratavam de pôr em versos a sua façanha. Em Esparta, eram os vencedores nos Jogos Olímpicos que tinham a honra de, nas batalhas, marcharem à frente de seus reis - em nossos dias, tal prática talvez fizesse esvaziar as competições...

7. Apenas atletas gregos podiam competir. Em sua História, Heródoto conta-nos que, querendo Alexandre (que era macedônico), participar do Jogos, foi inicialmente impedido, já que os demais competidores retiraram-se da arena alegando que "aqueles não eram jogos para bárbaros". Entretanto, acabou-se "demonstrando" que Alexandre era de origem argiva, pelo que os juízes o declararam grego, de modo que pôde entrar na disputa. Desde então, como bem sabem meus leitores, resoluções semelhantes, ditadas pela conveniência, ainda que em circunstâncias muito diferentes, têm corrido este planeta.

8. Os competidores eram, via de regra, provenientes da elite das cidades gregas - em geral só eles dispunham de tempo para os rigorosos treinamentos preparatórios às competições, além de recursos para custear carros e cavalos necessários a algumas provas. Não era incomum que, na vida adulta, os campeões olímpicos viessem a envolver-se ativamente na vida política de suas respectivas cidades-Estados.

9. As modalidades esportivas eram, quase todas, úteis ao preparo de soldados para a batalha. Por isso, os esportes eram, na sociedade grega, muito valorizados na educação dos jovens, pois entendia-se que eram decisivos na formação de bons cidadãos.

10. A dominação da Grécia por povos estrangeiros descaracterizou os Jogos que, no entanto, continuaram a ser realizados, até que a expansão do Cristianismo levou os governantes adeptos da nova religião a proibirem as competições, sob o pretexto de que eram uma celebração do paganismo. Ainda assim, continuaram a ter realização esporádica, até finalmente desaparecerem por completo. As Olimpíadas da era moderna, retomadas em 1896, já não mais em Olímpia e sim em Atenas, têm hoje muito pouco em comum com os Jogos gregos do passado.


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domingo, 13 de maio de 2012

Moda parisiense, moda americana - uma transformação radical no vestuário feminino

"Adélia, ao contrário, era o tipo, raro então e hoje muito comum, de certos costumes de importação; era a mocinha de maneiras arrebicadas à francesa, cuidando unicamente de modas e do toucador. Nisso a filha de D. Luísa não fizera mais do que apurar a lição e exemplo de sua mãe."
                                                                                                        José de Alencar, O Tronco do Ipê

No ano de 1852 apareceu no Rio de Janeiro, editado pela Typographia Laemmert, o Novo Correio de Modas, uma publicação voltada para o público feminino e que, ao contrário do que poderia sugerir o título, não tratava apenas das últimas novidades em assuntos de vestuário, embora fosse esse o tema central - seu alcance era mais ambicioso, incluindo, como se anunciava, também "novelas, poesias, viagens, recordações históricas, anedotas e charadas".
Cento e sessenta anos depois, olhamos para essa revista e, comparando-a às atuais publicações do ramo, não podemos deixar de constatar o quanto as coisas mudaram. Exemplifiquemos.
Com o fim de garantir a estreia em grande estilo, o primeiro número trazia uma sugestão da última moda em Paris, conforme a ilustração que pode ser vista logo abaixo:
A moda parisiense, de acordo com o
primeiro número do Novo Correio de Modas,
1852. (¹)
E, deixando que fale o próprio Correio, vamos à explicação do que se trata:
"A nossa primeira estampa representa dois figurinos de senhora, qual deles o mais bonito. De Paris os recebemos, e aqui os entregamos às nossas amáveis leitoras, para que aproveitem o que julgarem mais distingué, a fim de formar o belo composto de seus elegantes toillettes."
Segue-se ainda esta ponderação:
"As modas são como a primavera; sempre que aparecem trazem uma flor nova, que se ama colher, unir ao seio e aspirar com alegria; embora tenha de em curto tempo murchar e fenecer. Não importa, é o destino das mais belas coisas deste mundo durar pouco. [....]."
Tentem os leitores imaginar o que seria uma nota dessas em alguma das revistas de moda atualmente nas bancas!
Fica, porém, entendido, que, pelo menos para as madames da alta sociedade, com recursos suficientes para gastar com "a última moda de Paris", vestir-se bem devia ser mais ou menos como se apresentam as duas personagens da ilustração, o que não caracteriza, por si, nenhuma novidade. Era esse o padrão, salvo poucas variações, em todo o mundo ocidental.
Inovações, porém, estavam a caminho... Inovações, apenas? Não, uma verdadeira revolução no vestuário feminino. E podemos ter uma ideia exata disso pelo que noticiou o número dois do Novo Correio das Modas. A despeito de ser o trecho um tanto longo, vale a pena transcrevê-lo aqui, pois meus leitores, cientes do conceito de processo histórico, não deixarão de compreender o que esta novidade veio a significar, em um prazo de pouco mais de sessenta ou setenta anos, principalmente após a Primeira Guerra Mundial. Vamos então à notícia, na qual se percebe, por parte do redator, talvez um tom algo jocoso:
"Há pouco tempo celebrou-se em Nova York uma reunião singularíssima composta exclusivamente de indivíduos do sexo feminino. A assembleia era presidida pela senhora Gove Nichols, servindo de secretaria Sara Townsend. Depois do discurso da presidente explicando o fim daquela reunião, leram-se e aprovaram-se as seguintes resoluções:

Considerando que a maneira atual de vestir as mulheres é contrária ao que demanda a saúde, a conveniência, a comodidade, o asseio e a elegância;
Considerando que a maneira atual de vestir é de origem estrangeira, e oferece graves inconvenientes a nossas compatriotas, com obrigações indignas de uma sociedade livre;
Esta assembleia resolve:
- Que se recomende e adote um traje que nos ponha a coberto do incômodo e opressão do que atualmente vestimos; que não coarcte a nossa liberdade de ação tão necessária como útil para nossa saúde e comodidade, que nos emancipe de modas e caprichos estrangeiros, e que nos releve da obrigação que até agora nos tem imposto de varrer as ruas da cidade com as saias dos vestidos.
- Que a assembleia se declare com direito de escolher o traje que esteja mais em harmonia com a decência e elegância, sem desprezar a saúde e a comodidade.
- Que se invoque em favor do novo traje, que reúne elegância à conveniência, o apoio da moda, desse ídolo que até agora nos tem feito escravas das suas extravagâncias.
- Que se exortem nossas irmãs a declarar de fato e pela palavra a sua emancipação da moda atual, odiosa e degradante, e a que adotem o trajar que mais convenha à saúde e à comodidade, e que melhor faça realçar a verdadeira formosura.
- Que se declare que o trajar que recomendamos não é nem turco, nem persa, senão americano, resultado do nosso engenho e uma prova da nossa soberana independência!"

Ora, dirão meus leitores, e que nova moda era essa, afinal, revestida de tamanha importância ao ponto de ser guindada ao posto de questão de honra nacional, soberania e independência?
A publicação que mencionamos esclarece:
"Algumas das senhoras que faziam parte da assembleia trajavam já segundo os novos princípios revolucionários, isto é, calças largas, jaquetinhas e chapéus de abas grandes!..."
Como se vê, nada que estivesse relacionado à última moda parisiense, daí o espanto que beira o escárnio por parte da editoria do Novo Correio de Modas, que ainda acrescenta:
"Resta saber se as nossas belas fluminenses estão dispostas a seguir o exemplo das suas irmãs da América do Norte!"
Interessante esta questão levantada. O fato é que, beneficiados por vivermos mais de século e meio depois desses acontecimentos, já temos a resposta. Por assim dizer, sabemos muito bem de que lado pendeu a balança. Mutatis mutandis, naturalmente.

(1) Os originais dos números 1 e 2 do Novo Correio de Modas pertencem ao acervo da Biblioteca Nacional. A imagem foi editada para facilitar a visualização.


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quinta-feira, 10 de maio de 2012

O vestuário de trabalhadores livres no Sudeste brasileiro na primeira metade do Século XIX

Já dediquei, neste blog, três postagens especificamente ao assunto do vestuário dos escravos no Brasil. Um outro aspecto a ser considerado é o que usavam os trabalhadores livres, de baixa condição social. Aqui há que se dizer que a diversidade era considerável, em grande parte decorrendo das diferentes condições ambientais proporcionadas pela extensão do território brasileiro. Uma atividade semelhante - a pecuária, por exemplo - podia significar o uso de indumentária confeccionada em couro, isso em áreas do Nordeste, devido à aspereza da vegetação, enquanto que no Rio Grande do Sul podia impor a necessidade de roupas capazes de proteger contra o vento e o frio. O mesmo pode ser dito em relação a inúmeras outras ocupações. Era, pois, grande a variedade de hábitos no vestir-se que podia ser observada quando se percorria o Brasil já em fins do período colonial. Curiosamente, alguns desses hábitos persistem, em maior ou menor grau, até hoje, ora timidamente disfarçados, ora orgulhosamente ostentados como "trajes típicos", em festividades regionais.
Menos famoso e, talvez por isso, menos comentado, o trajar dos homens livres e pobres do Sudeste é mencionado por Saint-Hilaire, ao relatar o que via em viagem pelo Vale do Paraíba, no ano de 1822, indo de São Paulo ao Rio de Janeiro, quando observou:
"O vestuário das pessoas que encontro consiste simplesmente num grande chapéu de feltro, camisa e calças de tecido grosseiro de algodão." (¹)
A observação cuidadosa da ilustração abaixo (²), obra de Moritz Rugendas, revela que ela apresenta homens trajados à moda descrita por Saint-Hilaire. Dois aspectos interessantes: primeiro, a imagem retrata um ponto à margem do rio Paraibuna, um importante afluente do Paraíba, à altura de um pouso de tropeiros; segundo, nessa área, o trajar dos escravos não era lá muito diferente daquele disponível para esses trabalhadores livres. O que variava era, quando muito, a qualidade dos tecidos e, quase sempre, o tempo pelo qual se esperava que uma roupa deveria ser utilizada.


(1) SAINT-HILAIRE, A. Segunda Viagem a São Paulo e Quadro Histórico da Província de São Paulo. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 115.
(2) RUGENDAS, Moritz. Malerische Reise in Brasilien. Paris: Engelmann, 1835. O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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terça-feira, 8 de maio de 2012

O vestuário masculino nas Minas Gerais no início do Século XVIII

Antonil (ou Andreoni, como quiser o leitor), investigou a fundo o modo de vida nas regiões produtoras de riquezas do Brasil Colonial e, embora enfrentando uma proibição de ir às Minas, ainda assim interrogou os que lá estiveram e deixou disso um importantíssimo relato, no qual constam os preços que os mineradores estavam dispostos a pagar por artigos necessários à subsistência.
Referindo-se aos preços que eram praticados no comércio de vestuário nas Minas, Antonil faz, indiretamente, uma lista do que se vestia na época, sendo conveniente lembrar que, em virtude da abundância de ouro, era comum que se buscasse ostentar riqueza, daí a existência, na lista abaixo, de preços para artigos comuns e também para peças de melhor qualidade:

"Por uma casaca de baeta ordinária, doze oitavas.
Por uma casaca de pano fino, vinte oitavas.
Por uma veste de seda, dezesseis oitavas.
Por uns calções da pano fino, nove oitavas.
Por uns calções de seda, doze oitavas.
Por uma camisa de linho, quatro oitavas.
Por umas ceroulas de linho, três oitavas.
Por um par de meias de seda, oito oitavas.
Por um par de sapatos de cordovão (¹), cinco oitavas.
Por um chapéu fino de castor, doze oitavas.
Por um chapéu ordinário, seis oitavas.
Por uma carapuça de seda, quatro ou cinco oitavas.
Por uma carapuça de pano forrada de seda, cinco oitavas." (²)

Os preços, como se vê, são exorbitantes, considerando que uma oitava equivale a aproximadamente 3,6 gramas de ouro. Não se fala em moeda circulante, as cotações são dadas em metal precioso.
Curiosamente, o Padre Antonil só mencionou vestuário masculino (³). Eram os homens, nesse tempo, muito mais numerosos nas minas do que as mulheres, por razões que não são difíceis de imaginar, em que se considerem os costumes da época. Uma consequência disso é que, em uma realidade na qual a mão de obra para extração aurífera era indispensável, o que significava, também segundo os costumes da época, a compra de escravos jovens e vigorosos, o preço de uma escrava podia ser ainda mais alto que o de seus companheiros de infortúnio pertencentes ao sexo masculino: se um escravo qualificado chegava a custar, ainda de acordo com Antonil, umas quinhentas oitavas, uma escrava mulata podia chegar a seiscentas ou mais. Os meus leitores não terão dificuldades em interpretar o triste significado disso.
Acontece que, gradualmente, mineradores passaram a estabelecer-se em definitivo nas minas (o que conduziu à urbanização), constituindo famílias ou fazendo transportar para lá as que já tinham em outro lugar. Por essa razão, a população de São Paulo, por exemplo, declinou bastante - bandeirantes iam e voltavam, mineradores ficavam em definitivo.

(1) Couro de cabra empregado na fabricação de calçados.
(2) ANTONIL, André João (ANDREONI, Giovanni Antonio). Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, pp. 141 e 142.
(3) É pouco provável que a "veste de seda", mencionada na lista fosse referência a indumentária feminina, porque seu preço, dezesseis oitavas, não está muito distante do atribuído aos calções de seda, que era de doze oitavas. Os vestidos usados pelas mulheres desse tempo consumiam metros e metros de tecido, o que resultaria em peças muito mais dispendiosas que as aqui citadas.


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domingo, 6 de maio de 2012

Todos de olhos no céu: a "superlua" e algumas reflexões dela decorrentes

Em tempos passados (refiro-me à Antiguidade), os reis e outros governantes tinham, em seu arsenal de funcionários públicos, gente especializada em vasculhar o céu, à procura, não de conhecimento científico, como hoje o entendemos, mas de supostas datas favoráveis para guerras, acordos com outros monarcas, casamentos reais e toda uma série de eventos que podia interessar à dominação de uma certa área. O fato interessante é que de tanta pesquisa resultou tanto uma porção de tolices (embora haja muita gente que ainda acredite nelas), quanto as bases para o que viria a ser a ciência que conhecemos como astronomia.
No período medieval, os estudiosos seguiram mantendo uma confusa mescla de ciência e superstição, uma vez que os recursos técnicos para o estudo dos fenômenos celestes eram, reconheçamos, realmente escassos. Só pelas alturas do Renascimento é que as coisas começaram a mudar, ainda que ao preço de muito incômodo para investigadores audaciosos que ousavam contestar as crenças comumente aceitas e referendadas por gente que se considerava sábia demais para ter de aprender alguma coisa nova. Hoje,  felizmente, ninguém precisa dar explicações quando resolve espetar o nariz no céu, seja por interesse científico, por mera curiosidade ou até por fantasias românticas. No máximo,  parentes, amigos ou vizinhos podem achar que melhor que andar com os olhos nas estrelas é prestar atenção nos problemas daqui da Terra mesmo.
A despeito disso, quando algum fenômeno facilmente observável ocorre, pode-se ver gente que, mesmo usualmente não tendo qualquer interesse por astronomia, reúne-se em grupinhos nas esquinas, olhos no céu, tentando alardear grande conhecimento - bem ou mal, isso é resultado de uma divulgação mais ampla de informações, de mais escolaridade, talvez de uma certa democratização do saber, ainda que, ao menos por hora, muito longe do padrão desejável. Foi o que aconteceu desde o entardecer do sábado, dia 5 de maio de 2012, pela ocorrência da chamada "superlua", ou lua no perigeu. Fui também fazer minhas fotos, e compartilho uma delas com meus leitores: nosso satélite parece uma frágil lanterna oriental balançando ao vento, delicadamente presa a um poste (torto) da rede de energia elétrica, à margem de uma estradinha rural...
Para os leitores que não gostam dessas brincadeiras, fica o consolo de que as postagens sérias retornam a partir da próxima terça-feira.


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quinta-feira, 3 de maio de 2012

A moda no vestuário em São Paulo no final do Século XVI e início do Século XVII

A postagem do dia 24 de abril  de 2012 tratou da Companhia de Soldados Descalços que Martim de Sá, capitão-mor no Rio de Janeiro, constituiu para a defesa da terra, uma vez que muitos colonos não tinham calçados com que apresentar-se às suas obrigações militares. Ocorre que não só os colonos do Rio de Janeiro tinham recursos escassos para o trajar habitual, como também, vivendo entre os indígenas, adotavam, até por uma questão de sobrevivência, muitos de seus hábitos. Fenômeno semelhante ocorria na Capitania de São Vicente, como se pode concluir da leitura desse trechinho escrito por Frei Vicente do Salvador, em sua História do Brasil, ao referir-se à população da vila de São Paulo em fins do século XVI e início do século XVII, por ocasião da presença do Governador Dom Francisco de Sousa naquela localidade, com o fim de procurar jazidas de metais preciosos:
"[...] o Governador se foi de São Vicente à Vila de São Paulo, que é mais chegada às minas, onde até então os homens e mulheres se vestiam de pano de algodão tinto, e se havia alguma capa de baeta e manto de sarja se emprestava aos noivos e noivas para irem à porta da igreja; porém depois que chegou Dom Francisco de Sousa, e viram suas galas, e de seus criados e criadas, houve logo tantas librés, tantos periquitos e mantos de soprilhos, que já parecia outra coisa [...]." (*)
Eis, simplesmente, o que acontecia: antes da chegada do pomposo governador, os paulistas, eles e elas, vestiam-se de modestos trajes de algodão, fibra vegetal cujo cultivo e uso a população indígena dominava, e que os moradores do planalto paulista, mestiços em sua maioria, adotavam para sua indumentária, não vendo nada de errado nisso. Logo, logo, tudo iria mudar, fazendo com que essa boa gente viesse a sentir-se tal qual Adão e Eva no Paraíso, após comerem do malfadado fruto proibido...
A chegada de Dom Francisco de Sousa teve, como efeito colateral nada desprezível, a capacidade de provocar uma revolução no vestuário dos colonos, ao menos no caso dos que tinham recursos para isso. E, em benefício dos leitores mais jovens deste blog, que talvez não estejam habituados à linguagem dos documentos históricos, vão, a seguir, algumas explicações sobre o significado tanto da antiga quanto da nova moda:
Sarja e baeta, que usavam os noivos e noivas em suas núpcias, eram tecidos rústicos, o mais das vezes feitos de lã trançada; libré era o nome dado ao uniforme que vestia a criadagem da nobreza; periquitos eram nós ou laços feitos, provavelmente, a título de enfeites e, finalmente, soprilho vem a ser um tipo de seda finíssima, quase transparente.
Quem pode negar, pois, que os costumes efetivamente mudaram?

(*) SALVADOR, Frei Vicente do. História do Brasil. c. 1627.


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terça-feira, 1 de maio de 2012

Uma embarcação chamada pelota

Sabe o que é pelota? No sentido a ser usado nesta postagem, poderia ser definida como uma embarcação improvisada, feita geralmente de couro de boi. Quem a descreve com mais detalhes é Saint-Hilaire, que precisou servir-se de uma ao passar de uma margem a outra do rio Butuí. Ele é quem conta, com uma pitada de humor, a despeito da rabugice habitual:
"Ao nascer do dia, começamos a descarregar a carroça, e minhas bagagens passaram para uma piroga improvisada, tão em uso na Capitania de Montevidéu e de Rio Grande, onde não há ponte.
A pelota, nome dado a estas pirogas, é simplesmente um couro cru ligado nas quatro pontas e que, desse modo, forma um barco que se pode confundir, pela aparência, com as sacolas de papel onde se põem biscoitos. Enche-se a pelota de objetos, ata-se nela uma corda ou tira de couro; um homem, a nado, prende a corda entre os dentes e faz passar assim a piroga. Para facilitar o trabalho, meus homens estenderam uma corda de um lado a outro do rio, com a intenção de ajudá-los na travessia a nado. Eu mesmo atravessei o rio sentado numa pelota e cheguei felizmente à outra margem, bem como as minhas bagagens e a carroça. Matias, José Mariano e Firmiano ajudaram, alternadamente, a pelota a passar." (¹)
Um fato interessante é que Debret também deixou um registro desse tipo de embarcação, não em palavras, mas em uma bela imagem, que pode ser vista abaixo.

Embarcação feita com couro de boi, de acordo com Debret (²)

Tanto Saint-Hilaire quanto Debret estiveram no Brasil quando o período colonial se encerrava, e o país estreava como nação independente. Nesse tempo, a pelota tinha uso em muitos lugares, já que permitia que rios sem pontes fossem atravessados por viajantes. Era uma embarcação compatível com as condições muitas vezes difíceis do povoamento da América do Sul - os transportes, por qualquer método então disponível, eram precários, e as viagens, muito perigosas. Quem tinha de percorrer distâncias consideráveis devia arriscar-se pelas péssimas trilhas existentes (quando existiam...) submetendo-se às condições abjetas que reinavam na maior parte dos pousos de tropeiros, quase os únicos lugares em que era possível aos viajantes encontrar abrigo à noite ou em caso de tempestades.

(1) SAINT-HILAIRE, A. Viagem ao Rio Grande do Sul. Brasília: Senado Federal, 2002, p. 327.
(2) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique au Brésil vol. 2. Paris: Firmin Didot Frères, 1835. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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