quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Como se fazia pão quando não havia rede elétrica

"Estácio aceitou sem dificuldade o convite; sentou-se defronte do homem, ao pé da mesa, e assistiu ao almoço, que não podia ser mais escasso: um pão, duas hóstias de queijo duro e uma chávena de café."
                                                                                                                       Machado de Assis, Helena

Talvez o mais universal dos alimentos, o pão pode ser feito por uma grande variedade de procedimentos, com os mais diversos ingredientes, refletindo o desenvolvimento técnico, a produção agrícola e os costumes, por tradição passados de uma geração a outra, de uma dada localidade. Assim, meus leitores estão convidados a fazer pão pelas regras vigentes em boa parte do Brasil até tempos relativamente recentes. Apenas por uma questão de escolha, seguiremos os hábitos da segunda metade do século XIX.
Nada de máquinas que fazem quase tudo sozinhas! Nem mesmo comprar tudo pronto em uma panificadora ou confeitaria, já que essas só existiam nas localidades maiores e, como o Brasil do século XIX era predominantemente rural e não urbano, não podemos servir-nos delas.

Cilindro manual para sovar massa de pão, fins do Século XIX (*)
Escolhida a receita (que sempre se sabia de memória, passada de uma geração a outra), os ingredientes deviam ser misturados, lembrando que a técnica, com alto grau de certeza, envolvia fermentação natural, muito lenta, ainda que de resultado bastante saboroso. Deixada a descansar, a massa, depois de completamente levedada, devia ser sovada. Aí é que entrava em cena um cilindro manual, que facilitava um pouco todo o processo, mas devia ser movido "no braço". Cabe também observar que, nesses tempos, a quantidade de massa devia ser grande, já que as famílias eram muito mais numerosas do que atualmente, e o pão precisava ser suficiente para alimentar a todos, durando por dois ou três dias.
Então, leitores, já estão cansados só de pensar? Continuemos.
Sovada a massa, devia ser posta a descansar e, quando se julgava suficiente, era sovada mais uma vez no cilindro manual; dividida em pedaços, era modelada no formato tradicional de pães e/ou colocada em formas, crescendo mais um pouco, até estar em condições de ir ao forno - forno de barro, forno a lenha.
Assados, os pães eram retirados do forno e, maravilha das maravilhas, podiam ser cortados, ainda quentinhos, recebendo frequentemente cada fatia uma generosa quantidade de manteiga da fazenda, para consumo com café, chá, leite, o que se quisesse. Era muito trabalho, sim, mas deste modo é que foram alimentadas incontáveis gerações antes de nós.

(*) Pertence ao acervo do Museu Histórico e da Porcelana de Pedreira, SP.


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terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

A iluminação pública e residencial quando não havia rede elétrica

"O largo apresentava novo aspecto; as tochas acessas em volta e as luminárias suspensas nas janelas das casas, derramavam sobre as alcatifas cobertas de lantejoulas a claridade das luzes, menos brilhante que a do sol, porém mais suave e fascinante."
                                                                                                   José de Alencar, As Minas de Prata

Candeia usada no Século XIX (³)
Se fôssemos capazes de voltar no tempo, talvez uns duzentos anos, veríamos logo ao anoitecer que tudo ficava realmente escuro. Excetuando-se as pequenas lanternas de mão costumeiramente carregadas quando, corajosamente, alguém andava pelas ruas à noite, poder-se-iam ver poucas luzes, bruxuleando através de frestas de janelas ou gelosias - eram velas em castiçais, pequenas candeias sobre os móveis das casas ou presas às paredes, quem sabe alguma lamparina. Defronte às residências, apenas tochas, colocadas quase sempre somente em dias festivos. O combustível para isso era, naturalmente, economizado, fosse o precioso azeite, quase nunca usado no Brasil (era caro, vinha do Reino), ou o mais comum, óleo de baleia (sim, senhores leitores, era muito usado, e não só no Brasil, o que fez da pesca de baleias, durante muito tempo, um negócio importante no litoral brasileiro, a ponto de ser alvo de monopólio e, segundo Varnhagen, de quase se extinguirem dessas paragens os pobres cetáceos).

Anúncio de lamparina a querosene, publicado em 1905 (⁴)

Anúncio datado de 1915, no qual são oferecidos
vários produtos e instalação
de luz elétrica (⁵)
No Brasil do século XIX algumas cidades receberam a dádiva de uma iluminação pública a gás (¹), que, nas primeiras décadas do século XX, seria gradual e generalizadamente substituída, como todo mundo sabe, por redes elétricas. Fato menos conhecido, no entanto, é o de que as companhias de iluminação a gás forneciam, além da iluminação de rua, também iluminação residencial que, como se pode facilmente imaginar, não era coisa para todos. Dados referentes a 1887 dão conta de que havia, naquele ano, mais de 1300 combustores a gás instalados na cidade de São Paulo para iluminação pública, sendo 1430 as residências servidas por iluminação também a gás. (²)
A introdução das redes de energia elétrica, feita paulatinamente, significou, durante certo tempo, uma convivência entre o gás e a eletricidade como modelos de iluminação, tanto pública quanto residencial, até que um viesse a destronar completamente o outro.

Anúncio de bondes elétricos sem trilhos (⁶)

(1) São Paulo, por exemplo, teve a iluminação pública a gás inaugurada em 1872.
(2) Veja, sobre isso: TAUNAY, Affonso de E. História da Cidade de São Paulo. Brasília: Ed. Senado Federal, 2004, p. 345.
(3) Pertence ao acervo do Museu da Energia de Itu, SP.
(4) ECHO PHONOGRAPHICO, nº 35, janeiro de 1905.
(5) A CIGARRA, 30 de dezembro de 1915.
(6) A CIGARRA, 6 de março de 1914.


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domingo, 12 de fevereiro de 2012

Por que os povos da Antiguidade faziam tantas guerras

Uma vez alguém me perguntou por que os povos antigos viviam brigando uns com os outros. Ora, não eram apenas os antigos que faziam isso... Mas é verdade que, se hoje as guerras são geralmente vistas como um grande mal, devendo, tanto quanto possível, ser evitadas, já houve épocas em que eram encaradas como uma coisa rotineira, sendo pouco provável que alguém passasse pela vida sem estar, voluntariamente ou não, envolvido em várias delas. Aliás, era enorme a probabilidade de se morrer em combate ou por razões colaterais às guerras. Por que, afinal?
A lista de razões poderia ser bem grande, mas vão aqui algumas delas, mais com o propósito de induzir meus pensantes leitores a algumas reflexões que propriamente com a ideia dar uma palavra final ao assunto. Mas vejamos:
a) As guerras dos antigos tinham, muitas vezes, o objetivo de tomar a outros povos territórios que eram considerados mais favoráveis à agricultura, com melhores recursos hídricos ou que sabidamente contivessem riquezas minerais que pudessem ser exploradas;
b) Também se guerreava para, vencendo o inimigo, obrigá-lo ao pagamento de pesados tributos;
c) Por vezes, precisando de mão de obra extra, a guerra era feita com o intuito de escravizar os derrotados;
d) Quando se sabia que um monarca havia entesourado grandes riquezas, podia-se fazer guerra para saquear suas propriedades;
e) Motivos religiosos eram frequentemente invocados para justificar a guerra, na tentativa de mostrar que a(s) divindade(s) de determinado povo era(m) mais poderosa(s) que a(s) de outro;
f) Os líderes, muitas vezes cultuados como divindades, viam-se na obrigação de mostrar, pelas vitórias alcançadas em combate, que eram seres verdadeiramente superiores (é claro que o tiro podia sair pela culatra, ainda que tiros, na antiguidade, tivessem um significado muito diferente do atual);
f) Além disso, ia-se à guerra por razões estratégicas, julgando-se que tomar a iniciativa no combate era, pelo menos em termos de moral, uma vantagem militar.
Como veem meus leitores, nada muito diferente, no fim das contas, das razões que levam os civilizados povos de hoje a se engalfinharem, na suposição de que alguma vantagem será obtida, comprometendo gerações de jovens, infraestrutura, suprimentos e os muitas vezes escassos orçamentos de que dispõem os Estados. Que coisa inteligente!


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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

É mau escravo? Será mandado para venda no Rio Grande!

O naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire, que andou por terras brasileiras por volta da época da independência, revela-nos um fato curioso em relação a um costume que havia, segundo ele, de que se mandassem para o Rio Grande do Sul os escravos que, no Rio de Janeiro, eram considerados, por qualquer razão, inadequados para o trabalho. Quer dizer, se algum escravo, pelos critérios do respectivo senhor, "não andava na linha", era por ele aterrorizado com a ameaça de ser vendido para o Rio Grande! Eis o que, a respeito, escreveu Saint-Hilaire:
"Segundo o depoimento de um dos membros da junta, os crimes são muito frequentes nesta capitania, principalmente entre os negros, o que não é de se admirar, devido ao costume, no Rio de Janeiro, de mandar vender aqui todos os escravos de que se querem livrar." (¹) Como se vê, havia até mesmo a tentativa de justificar a criminalidade com base nessa prática de transferir para o Sul os escravos indesejáveis.
Entretanto... Entretanto, na mesma obra, Saint-Hilaire volta a discutir a questão, mostrando que, a seu ver, era grande vantagem para um escravo do Rio de Janeiro ser mandado para o Rio Grande do Sul. Explica ele:
"Como já disse, os habitantes do Rio de Janeiro, desgostosos de seus escravos, vendem-nos para esta capitania e, quando querem intimidar um negro, ameaçam-no de enviá-lo para o Rio Grande. Entretanto não há, talvez, no Brasil, lugar algum onde os escravos sejam mais felizes do que nesta capitania. Os senhores trabalham tanto quanto os escravos; conservam-se próximos deles e tratam-nos com menos desprezo. O escravo come carne à vontade; não veste mal; não anda a pé; sua principal ocupação consiste em galopar pelos campos, o que constitui exercício mais saudável do que fatigante; enfim, ele faz sentir aos animais que o cercam uma superioridade consoladora de sua condição baixa, elevando-se aos próprios olhos." (²)
Ainda que não deixe de ser espantosa a ideia de que, no fim das contas, era bom para o escravo sentir-se superior aos animais (!!!), há algum sentido nas observações do naturalista quanto à melhor condição de vida para os cativos que trabalhavam na pecuária, mesmo porque, segundo o próprio Saint-Hilaire já havia notado, os escravos eram, nas regiões meridionais do Brasil, muito menos numerosos que em outras áreas, nas quais as atividades econômicas, tais como agricultura canavieira e mineração, exigiam um volume muito maior de mão de obra. Ocorre, porém, que escravidão era sempre escravidão, e o escravo, ainda que vivendo um pouco melhor, era sempre escravo, sempre mercadoria e mão de obra compulsória, da qual o senhor podia dispor virtualmente como bem entendesse, mesmo quando se tinha a boa sorte de ter um senhor mais "humano". O fato de serem muito populares as muitas versões da lenda do "Negrinho do Pastoreio" não deixa dúvidas a respeito, já que, para ter alguma credibilidade, qualquer lenda precisa de uma ancoragem plausível em aspectos bem reais - neste caso, o escravo que, trabalhando com o gado, é brutalmente espancado por seu senhor.

(1) SAINT-HILAIRE, A. Viagem ao Rio Grande do Sul. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 56.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

"Vende-se uma escrava..."

Colocar anúncio em jornal foi, no passado, e ainda é, em muitas situações, um modo conveniente de informar, a eventuais interessados, que se pretende vender alguma coisa. Usa-se, então, especificar as características (quase sempre ressaltando as virtudes) daquilo de que se quer dispor, informando-se também um endereço para contato. No século XIX, quando os jornais começaram a se tornar numerosos no Brasil, a situação não era muito diferente quando alguém desejava vender um escravo (embora, obviamente, o endereço para contato incluísse apenas cidade, rua e número, jamais telefone ou e-mail!).
Em quatro anúncios aqui selecionados, meus leitores poderão ter uma ideia de como se tornava pública a venda de cativos. Vejamos os dois primeiros, mandados publicar pelo Juízo de Órfãos, que era, na época, a instância responsável por administrar o espólio dos que faleciam deixando herdeiros ainda menores de idade:
Um diz:
"Pelo Juízo de Órfãos e cartório do escrivão Castro se faz público que achando-se em praça duas escravas de nomes Francisca e Catarina, pertencentes à herança do finado José Justiniano Vieira Falcão, hão de as mesmas se arrematarem na casa da polícia, no dia 10 do corrente, às 10 horas da manhã, cujas avaliações acham-se no cartório do dito escrivão, e as escravas em poder de Luís Álvares, testamenteiro do dito finado." (¹)
Já o outro informa:
"Por ordem do Ilustríssimo Sr. Dr. José Antônio Vaz de Carvalhais, juiz de órfãos desta cidade e seu termo, se faz público que no dia vinte e oito do corrente, nas casas de audiências deste Juízo, ao meio dia, se arrematarão os escravos Generosa e seu filho, pertencentes à herança da finada Esméria Maria, da freguesia da Penha, e a escrava Felicidade, de 16 anos de idade, pertencente a dois herdeiros do finado Joaquim Nunes Ribeiro, da freguesia de Itapecerica. São Paulo, 12 de agosto de 1852. O Escrivão, Manoel José Simões Guimarães." (²)
Os dois últimos anúncios escolhidos foram mandados publicar por particulares que desejavam vender escravos de sua propriedade. Em comum, tinham o fato de que os cativos eram ainda jovens, ressaltando-se sempre suas qualidades. Entende-se: ninguém que queira vender alguma coisa, obtendo, por suposto, o melhor preço, irá fazer circular dela uma descrição negativa.
Primeiro, informa-se a venda de uma escrava:
"Vende-se uma escrava que terá 25 anos de idade, sem moléstias nem vícios conhecidos, não tem má figura, o motivo da venda não desagradará ao comprador; para ver e tratar na rua do Comércio, nº 8." (³)
Agora, uma proposta de venda de um escravo que tinha a profissão de alfaiate, o que elevava bastante seu preço, embora os possíveis compradores certamente se perguntassem pela verdadeira razão que levaria a proprietária a dispor de um cativo tão valioso:
"D. Maria José de Alencastro Cezar, moradora na rua da Casa Santa, nº 3, tem para vender um rapaz de nome Miguel, de 22 a 23 anos, bom alfaiate, sem vícios e de muita habilidade. Quem o pretender dirija-se à mesma senhora, ou à rua de S. Bento, ao Ilustríssimo Sr. Benedito Antônio da Luz, para tratar." (⁴)
Saltam aos olhos de quem lê esses anúncios pelo menos dois fatos em relação à lógica do sistema escravista, neste caso em sua versão brasileira: um escravo não tinha, via de regra, qualquer poder de decisão quanto aos rumos de sua vida, o que significa que era obrigado a trabalhar para aquele que, no momento, fosse seu proprietário, de acordo com as condições que esse senhor lhe impunha, o que podia mudar radicalmente tanto para melhor como pior se, por qualquer razão, fosse vendido; finalmente, nota-se (não sem horror) que não havia muita diferença prática entre os anúncios de venda de animais de carga (cavalos, por exemplo) e os de escravos. Ou seja, era inerente à condição de escravo o ser considerado mercadoria, que se podia, portanto, comprar e vender, sem que se lhe permitisse expressar qualquer opinião a respeito.
Essa "lógica" social era brutalmente opressiva, mas não restrita, leitor, apenas aos escravos - que se veja, por exemplo, o modo pelo qual muitos senhores negociavam o casamento de suas filhas e será impossível evitar a constatação de que muito da estrutura social era incompatível com padrões que hoje consideramos indispensáveis à dignidade humana. Ora, se estas coisas coisas provocam, com justiça, um sentimento de indignação, por que é então que ainda se lhes toleram os resquícios que vemos por aí?

(1) AURORA PAULISTANA, 3 de julho de 1852.
(2) AURORA PAULISTANA, 21 de agosto de 1852.
(3) AURORA PAULISTANA, 25 de outubro de 1852.
(4) AURORA PAULISTANA, 29 de agosto de 1852. 
Os textos dos anúncios foram transcritos, segundo padrão neste blog, em ortografia  atual.


domingo, 5 de fevereiro de 2012

O comércio de escravos no Brasil

Nesta postagem, leitor, o assunto será o comércio de escravos africanos ou descendentes de africanos no Brasil - do tráfico de indígenas escravizados trataremos em outra ocasião.
Quanto ao comércio de escravos, há que se distinguir duas situações: a primeira é a dos que eram trazidos da África e vendidos, legalmente ou não, nos portos do Brasil - esse comércio cessou oficialmente em 1850; já a segunda situação é relativa ao comércio interno de escravos, ou seja, dentro do próprio país.
Mercado de escravos, de acordo com Rugendas (⁵)
Ao chegar ao Brasil, um navio negreiro (ou tumbeiro, apelido sinistramente apropriado) descarregava os escravizados que eram vendidos geralmente em um mercado, dos quais o do Valongo, na Corte do Rio de Janeiro, talvez fosse o mais famoso. Isso não quer dizer que os escravos aí comercializados eram, necessariamente, ocupados em trabalhar na mesma localidade. Os registros da navegação costeira que se fazia no Brasil do século XIX mostram que muitas vezes eram agentes de fazendeiros que efetuavam a compra e, posteriormente embarcavam a "mercadoria" para outras regiões. O curioso é que, devido à relativa precariedade das condições da navegação costeira, sucedia por vezes que um grupo de escravos viajasse em meio à gente livre, fato que despertava não pouco constrangimento entre estrangeiros que, percorrendo o Brasil da época, deixaram relatos interessantes (¹).
Coisa diferente era o comércio interno de escravos. Desconsiderando por hora, como já disse, o tráfico de indígenas escravizados (apenas para simplificar o estudo do assunto), é preciso diferenciar a venda isolada de um cativo (fosse porque o antigo senhor não precisava mais dele, ou porque fosse considerado "fujão", ou ainda por ser parte do espólio de um senhor falecido ou outra razão qualquer), das vendas em massa ocorridas em alguns momentos específicos da História do Brasil.
Um primeiro exemplo de vendas em larga escala no mercado interno é o da fase de explosão da atividade mineradora nas primeiras décadas do século XVIII, quando muitos senhores de engenho julgaram, diante da falta de gêneros alimentícios nas minas que, por isso mesmo, lá alcançavam preços quase inacreditáveis, ser conveniente descuidar da cultura canavieira para plantar artigos de subsistência que pudessem fazer, com bom lucro,  alcançar  os conglomerados urbanos mineradores, chegando a vender parte de seus escravos também para as minas, onde seu preço era também exorbitante. (²) Observe-se ainda que os preços aberrantes praticados nas minas (³) acabaram, por assim dizer, "contaminando" quase toda a colônia, de modo que chegou a haver, desde fins do século XVII, grande insatisfação popular com a alta geral de preços, fato que contribuía para tornar ainda pior a vida quotidiana, já difícil por si mesma, em virtude da precariedade das povoações coloniais.
Mais tarde, quando da expansão cafeeira no século XIX e, em parte em decorrência do fim do tráfico de africanos (a partir de 1850), houve alguma tendência à venda de escravos provenientes das minas já exauridas para áreas do eldorado da Coffea arabica. O crescimento das áreas cultivadas demandava um maior número de trabalhadores e, nesse quadro, pagar caro por escravos vindos de outras regiões do Brasil foi visto como um paliativo à escassez de mão de obra.
O declínio do mercado interno de seres humanos aconteceu, inevitavelmente, com a gradual desagregação da ordem escravista, fosse porque a chegada de trabalhadores livres imigrantes diminuía a vantagem do comércio de cativos, fosse porque ficava claro que era mau negócio investir em um sistema que estava fadado a desaparecer (ainda que tardiamente) ou, porque os próprios escravos, face à brutalidade da condição a que estavam submetidos, recorriam às fugas, mais e mais frequentes, conforme se observa nos anúncios oferecendo recompensas por sua captura que eram publicados na imprensa da época (⁴). A "mercadoria" perdia, com isso, valor de mercado e a ruína da ordem escravocrata era inevitável, já podia ser observada quer nas fazendas, quer nas cidades, mesmo antes da Lei Áurea. Com ou sem a Lei, era só uma questão de (muito pouco) tempo.

(1) Veja sobre isso a postagem "Os 'navios negreiros", embarcações que transportavam africanos escravizados".
(2) É o que diz Antonil em Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Veja-se, na edição original de 1711, as páginas 95 e 180.
(3) Veja sobre isso a postagem "Os preços dos alimentos nas minas de ouro do Brasil Colonial no início do Século XVIII".
(4) A postagem "Quem se importa com animais e escravos que fugiram?" trata da questão dos anúncios em jornais, nos quais se ofereciam recompensas pela captura de escravos fugitivos.
(5) RUGENDAS, Moritz. Malerische Reise in Brasilien. Paris: Engelmann, 1835. O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.



Veja também:

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Gênios anônimos do passado

Por mais que muita gente já tenha contestado esse hábito, parece que a espécie humana gosta de exaltar heróis individuais, aqueles que realizaram façanhas brilhantes, supostamente sem a ajuda de ninguém. Talvez isso aconteça porque, ao admirarmos a força, coragem, valentia, inteligência ou astúcia do herói, algo nos diga: "Se ele/ela conseguiu, você também pode!" Já houve até quem conjecturasse que nossa admiração pelos chamados "grandes homens" é resultado de uma percepção interior de que, exaltando seus feitos, tornamo-nos, sabe-se lá como, participantes de sua grandeza. Ironicamente, porém, alguns dos feitos mais notáveis da humanidade parecem pertencer a autores anônimos. Mais ainda, na incerteza de quem foi responsável por determinadas realizações, a gente do passado chegava a atribuí-las aos deuses.
Simplesmente para exemplificar, vão aqui algumas perguntas para as quais não há nenhuma resposta conclusiva (e talvez nunca venha a haver), que ilustram muito bem este assunto:

1. Quem teria sido o primeiro sujeito que, olhando o céu à noite e vendo que as estrelas pareciam formar agrupamentos, teve a ideia de dar nomes e a esses conjuntos estelares?

2. Quem terá sido a primeira pessoa a tentar "capturar os sons", criando algum sistema de notação musical? Não me refiro, por certo, apenas aos sistemas hoje conhecidos, mas a todos, absolutamente todos os que existiram, em todos os tempos.

3. Onde, quando e por quem terá sido feito o primeiro recipiente de cerâmica? É óbvio que o aperfeiçoamento da técnica foi trabalho de muitos povos, ao longo de um tempo enorme, mas quem terá tido a primeira ideia nesse sentido?

4. Quem terá garatujado pela primeira vez alguma coisa que poderíamos considerar um número? Com que propósito fez isso? Terá compartilhado esse rabisco com mais alguém ou guardou a novidade só para si? Vale a mesma questão para as diferentes formas de escrita.

Poderíamos seguir levantando muitas outras perguntas. Certo é que, se por um lado as pesquisas têm nos conduzido a muitas informações novas sobre os primórdios da humanidade, por outro estamos muito longe de ter resposta para todas essas questões, de modo que alguns dos maiores gênios que já viveram nesse planeta talvez venham a permanecer, para bem ou para mal, sempre desconhecidos.