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quinta-feira, 13 de abril de 2023

O primeiro pavão servido em um banquete romano


Animais exóticos, trazidos de longe, eram em extremo apreciados na Roma Antiga. As feras eram destinadas a lutas nos espetáculos sangrentos de que os romanos tanto gostavam. Seres mais pacíficos, pavões, por exemplo, podiam ter um destino igualmente trágico - mas não iriam lutar no Coliseu. Já voltaremos a falar deles. 
Contrariando a frugalidade vigente nos primeiros tempos da cidade, Roma, à medida que se fez Império, passou a apreciar os banquetes nos quais se servia tudo que houvesse de mais estranho. Esquisitices eram procuradas avidamente. Apício, o famoso chef contemporâneo de Augusto e Tibério, era partidário da ideia de que línguas de flamingo eram uma iguaria muito desejada por seu sabor em extremo delicado (¹). Aguentem, leitores: consta que nas ilhas Baleares, também na Antiguidade, filhotes de coelho eram extraídos da mãe antes do nascimento, já que eram tidos por iguaria finíssima (²). 
Agora, voltemos a falar dos pavões. De acordo com Plínio, no livro X de Naturalis Historia, "o orator Hortensius foi o primeiro romano a matar um pavão para que fosse servido no banquete de inauguração de seu sacerdócio" (³). Parece que, desde então, as belas aves já não tiveram sossego. Ainda em conformidade com Plínio, no primeiro século antes de Cristo houve quem criasse e engordasse pavões para banquetes, ganhando muito dinheiro com isso. Não se deve supor, contudo, que toda refeição em Roma fosse feita nesses padrões. A maioria da população tinha hábitos alimentares bem mais simples, e se supunha feliz quando tinha comida suficiente. Refeições longas e extravagantes eram apenas para a elite, acostumada à prodigalidade decorrente das riquezas que o Império obtinha com suas conquistas militares. Não para sempre, porém. 

(1) Cf. PLÍNIO, o Velho, Naturalis História, Livro X. Essa obra foi publicada na segunda metade do Século I d.C.; seu autor morreu no soterramento de Pompeia e Herculano em 79 d.C.
(2) Ibid., Livro VIII.
(3) Ibid., Livro X. O trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias


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terça-feira, 11 de junho de 2019

Conhecimento, na Antiguidade, era questão de ver e de ouvir

beatus qui legit et qui audiunt verba prophetiae et servant ea quae in ea scripta sunt tempus enim prope est
APOCALYPSIS IOHANNIS I, 3

"Para a aquisição de conhecimento", escreveu Estrabão, "a audição é mais importante que a visão" (¹). Essa ideia, é fácil notar, contraria a percepção de hoje no Ocidente, em que se concede um privilégio acentuado ao visual. O que é que levava esse grego da Antiguidade, que viveu no mundo romano, a favorecer o sentido do ouvir? 
No contexto de sua Geografia, Estrabão, explicando que havia viajado muito, mais do que a maioria dos contemporâneos que escreviam sobre o mesmo assunto que ele, afirmou que, a despeito de tudo quanto observara, precisava recorrer continuamente a informações ouvidas de outros, daí a importância que atribuía aos relatórios dos que haviam visitado lugares remotos, nos quais ele próprio nunca pusera os pés.
Contudo, meus leitores, havia razões, na Antiguidade, que, de fato, contribuíam para a relevância do ouvir na aquisição do conhecimento. É que a alfabetização, como vocês sabem, estava longe de ser universal. Assim, os felizes alfabetizados se tornavam leitores para os incapazes de ler. Mas não era só: por estranho que pareça, textos da Antiguidade eram, em muitas línguas, escritos sem qualquer separação entre as palavras (²), e esse detalhe nada insignificante dificultava, se é que não impedia por completo, a leitura silenciosa. Portanto, se havia alguém a ler para si mesmo, compulsoriamente em voz audível, havia gente por perto para ouvir, desejando ou não. Quanta informação não terá circulado dessa maneira!...
Finalmente, havia outro aspecto, que remete ao modo como livros eram publicados no mundo romano. Não havia, é claro, nenhum processo mecânico para a multiplicação de exemplares e, por consequência, qualquer pessoa que escrevesse um livro precisava, para publicá-lo, encomendar cópias manuscritas que, depois, eram distribuídas ou vendidas. Sendo poucos os exemplares, uma atividade social entre a elite era convidar amigos para reuniões de leitura, em que alguém lia, enquanto todos os demais ouviam. É razoável supor que essas reuniões se tornavam mais interessantes na eventualidade de que o autor de uma obra fosse, também, seu leitor, mas é preciso admitir, por certo, que em alguns casos deviam ser um grande tédio, que precisava ser tolerado a bem da etiqueta. Até mesmo em banquetes havia leitura, para entretenimento dos comensais. Quanta atenção, todavia, era dada a essa fração intelectual do cardápio, podemos presumir, meus leitores, por tudo o que sabemos quanto às práticas correntes nos banquetes da velha Roma.

(1) Geografia, Livro II.
(2) Como exemplo, a epígrafe desta postagem ficaria mais ou menos assim, já que, originalmente, foi escrita em grego: 
ΜΑΚΑΡΙΟΣΟΑΝΑΓΙΝΩΣΚΩΝΚΑΙΟΙΑΚΟΥΟΝΤΕΣΤΟΥΣΛΟΓΟΥΣΤΗΣΠΡΟΦΗΤΕΙΑΣΚΑΙΤΗΡΟΥΝΤΕΣΤΑΕΝΑΥΤΗΓΕΓΡΑΜΜΕΝΑΟΓΑΡΚΑΙΡΟΣΕΓΓΥΣ 
Alguém se candidata a ler? Não será demais recordar que, como na Antiguidade tudo o que havia para ler era sempre manuscrito, a caligrafia do copista era um fator a mais para facilitar ou dificultar a leitura.


quinta-feira, 20 de abril de 2017

Nos banquetes da Antiguidade

Curiosidades sobre as preferências de  comida e bebida entre povos antigos


Você beberia neste "cálice" grego? (¹)
1. Templos do mundo greco-romano eram locais de banquetes frequentes em honra dos deuses. Comida e bebida eram acompanhadas por música e dança, mas, como é óbvio, as estátuas de divindades, ainda que assistindo às festanças, não provavam coisa alguma. Não se pode dizer o mesmo quanto aos sacerdotes e devotos.

2. Em Roma estava disponível grande variedade de vinhos, de diversas procedências. Havia locais que vendiam vinho barato, de qualidade inferior, para a população pobre. Romanos de alta posição social eram consumidores de vinho superior, armazenado em ânforas, nas quais a data de produção e o tipo eram rigorosamente especificados.

3. Hesíodo, o poeta grego da Antiguidade, recomendou, em Os Trabalhos e os Dias: "Misture uma parte de vinho para três de água". Essa prática era comum, ao menos entre gregos e romanos, e o que variava era apenas a proporção dos dois líquidos. Em jantares importantes, escravos passavam junto às mesas com água quente e gelada, para atender às preferências dos convivas.

4. Os antigos egípcios atribuíam a invenção da cerveja ao deus Osíris. É quase desnecessário lembrar que cada povo que conhecia essa bebida também tinha um deus para responsabilizar por sua invenção. Portanto, leitores, todos já sabem, agora, por que é que, nos arredores do Nilo, havia tantas áreas nas quais a cevada era um cultivo importante.

5. Vida dura, a dos soldados romanos: entre eles, uma bebida muito usada nos acampamentos militares tinha o nome de oxycratum, e não era mais que uma reles mistura de água e vinagre.

6. De acordo com informação de Júlio César em De Bello Gallico, os antigos bretões se abstinham de comer gansos, lebres e galinhas.

7. Distribuições de trigo e outros cereais eram frequentes em Roma, como parte da chamada "política de pão e circo". Todavia, o imperador Valentiniano, que governou entre 364 e 375 d.C., foi além: mandou distribuir carne de porco entre a plebe.

8. É tradição que a carne de ganso era o alimento favorito de muitos faraós, e, no Egito, até mesmo gente que não pertencia à nobreza ou à elite sacerdotal costumava incluir essa ave na dieta, sempre que havia recursos para tanto.

9. Pavões faziam muito sucesso em Roma, mas não exclusivamente pela beleza de suas penas: quase não havia banquete em que não fosse servida carne de pavão. Ainda mais: ovos de pavão recheados eram tidos na conta de finíssima iguaria, somente encontrada nos festins dos mais ricos.

10. Afirma-se que o imperador Heliogábalo, que governou Roma entre 218 e 222 d.C., era grande apreciador de um prato preparado com cérebros de avestruz. Pode até ser exagero, mas era corrente na Antiguidade que, a cada festim imperial em que era oferecido o tal acepipe, umas seiscentas aves perdiam a cabeça, literalmente.

Cozinha romana em Pompeia
(ou o que restou dela) (²)
11. Os grandes cozinheiros de Roma eram especialistas em preparar novidades para deslumbrar os convidados de um banquete. Uma das surpresas acontecia quando os escravos encarregados cortavam um animal assado e, em seu interior, havia outro, e outro, e mais outro, cada um de uma espécie diferente.

12. Não só de carne exoticamente preparada se fazia um banquete em Roma - frutas raras também eram valorizadas. Damascos frescos, por exemplo, chegaram a ser vendidos por um denário a unidade, ou seja, pelo valor que era pago por um dia de trabalho (³). Mais tarde, quando o cultivo de damasco se difundiu na Península Itálica e a produção, por consequência, aumentou, os preços caíram, já que, perdendo a característica de novidade, não havia grande demanda por seu uso nos jantares das famílias abastadas.

(1) JAENNICKE, Friedrich. Geschichte der Keramik. Leipzig: J. J. Weber, 1900, p. 121.
(2) ENGELMANN, Richard. Pompeii. London: H. Grevel & Co., 1904, p. 82.
(3) Em se tratando de trabalhadores braçais.


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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

As festas de aniversário dos antigos persas

Não se pode acreditar em tudo o que Heródoto dizia. Ele próprio, embora assegurasse que procurava encontrar testemunhas confiáveis, não se dispunha a assumir a responsabilidade pelas informações, alegando que apenas contava aquilo que ouvia. A despeito disso, suas Histórias são muito interessantes e, sob vários aspectos, corroboradas por outros autores da Antiguidade e por pesquisas posteriores, tanto no campo da História como no da Arqueologia, ainda que alguns dos relatos contenham tolices cabeludas. Isto posto, leitores, o assunto de hoje é a comemoração de aniversários de nascimento entre os antigos persas - de acordo com Heródoto, é claro.
Como ainda acontece, a celebração de um aniversário dependia da situação econômica do aniversariante e de sua família. Outras datas também tinham festejos, mas a do nascimento seria, entre os persas, a favorita. Se o aniversariante era um sujeito rico e importante, convidava muita gente, e as mesas eram cobertas com animais inteiros (por suposto, depois de abatidos e assados). Heródoto menciona que a comilança incluía bois, jumentos, cavalos e até camelos. Que apetite!
Por outro lado, se o aniversariante não tinha recursos para tais acepipes, ainda assim festejava a data, com menos animais e de menor porte... Quem de vocês, leitores, aceitaria o convite?


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