quinta-feira, 16 de junho de 2011

O vestuário dos escravos no Brasil - Parte 2

Ao longo do século XIX proliferaram os jornais, ao menos nas cidades mais importantes do Império do Brasil. Como ocorre ainda hoje, uma parte razoável dessas publicações era dedicada a anúncios e propagandas, que devidamente estudados fornecem informações muito interessantes sobre a época.
Entre os anúncios que se publicavam eram assíduos aqueles relativos a escravos que haviam fugido. Seguiam um certo padrão, informando coisas como nome do escravo e do proprietário, data e local de onde fugira, características físicas do escravo e, frequentemente, a roupa que vestia na ocasião da fuga. Selecionei alguns desses anúncios que transcrevo a seguir, a título de amostragem,  já que esclarecem qual era a roupa comum dos escravos, particularmente dos que trabalhavam em fazendas, em meados do século XIX. São uma fonte de informação mas, ao mesmo tempo, mostram com clareza parte do horror do escravismo, naquilo que tinha de pior: os tentáculos do esquema de captura daqueles que ousavam fugir.

"Em 12 de maio de 1852 fugiram [...] dois escravos:
Um mulato de nome Marcino [...], levou uma faca de cabo de prata e uma pistola garrucha, uma capa de pano escocês além de mais roupa fina [...].
Outro [...] levou chapéu de minas, capa redonda, um pala branco e outro pintado de lã usado e sem forro, um paletó de brim e mais roupa grossa e fina [...]."
(Aurora Paulistana, 27 de maio de 1852)

"50$000 de gratificação a quem aprender um escravo de nome José [...]: levou roupa de algodão e poncho velho de forro encarnado."
(Aurora Paulistana, 28 de julho de 1852)

"Fugiu no dia 4 de agosto corrente um escravo [...] de nome Sabino [...], levou paletó de pano azul, forrado de baetilha xadrez e calça de algodão azul trançado [...]."
(Aurora Paulistana, 21 de agosto de 1852)

"Em princípio de maio do corrente ano fugiram da fazenda [...] dois escravos [...].
1º Miguel [...] Quando fugiu levou vestido calça e camisa de algodão, camisa e coberta de baeta azul e um ponche velho, mas pode ter já mudado de traje.
2º Francisco [...] Quando fugiu levou vestido calça e camisa de algodão mas pode ter já mudado de vestuário. [...] Ambos eles têm sinais de terem sido castigados por serem muito fujões."
(Aurora Paulistana, 21 de agosto de 1852)

"Fugiu [...] um escravo crioulo de nome Gabriel [...] com um sinal de gancho no pescoço e outro no pé defronte do tornozelo. Levou consigo um ponchinho velho e sem forro, duas camisas das quais uma de algodão, por baixo de uma de baeta azul, levou também calça de algodão da terra e um chapéu de pano branco velho e já rasgado."
(Aurora Paulistana, 29 de agosto de 1852)

"Fugiu [...] um escravo mulato de nome Amaro [...], foi vestido de camisa e calça de algodão, chapéu de palha, levou um poncho de pano azul e forro de baeta da mesma cor, e igualmente levou uma foice."
(Aurora Paulistana, 25 de outubro de 1852)

"Fugiu [...] um escravo de nome Antônio [...], levou uma baeta azul, roupa fina e grossa, chapéu de palha [...]."
(Aurora Paulistana, 25 de outubro de 1852)

"Fugiu em princípios de setembro deste ano [...] um escravo mulato de nome Mariano [...] levou uma pistola, uma faca, cartucheira com fivela de prata e vestido um poncho de forro vermelho, calça de algodão riscado, chapéu branco de copa redonda."
(Aurora Paulistana, 23 de dezembro de 1852)

"Gratifica-se generosamente a pessoa que apreender o escravo mulato de nome Belisário [...].
Esse escravo fugiu [...] trazendo camisa de chita e calça de casimira e cobertor francês branco. "
(Correio Paulistano, 5 de fevereiro de 1867)

Percebe-se facilmente uma regularidade - tecidos de algodão para calças e camisas, a recorrente camisa de baeta azul, poncho vermelho, algum tipo de chapéu. É de se notar que, na região serrana do Rio de Janeiro e em São Paulo, parte da indumentária comum aos escravos era um poncho de tecido espesso e resistente, em virtude das noites frias do inverno, embora essa peça não figurasse sempre entre os cativos que viviam regiões mais quentes. Podem ser percebidas algumas outras variações nos anúncios, mas eventuais discrepâncias não significam uma obrigatória variante do padrão, já que as roupas adicionais que um escravo levava ao fugir não tinham,  necessariamente, que ser suas. Em caso de fugas planejadas, um escravo podia tentar ocultar algumas peças durante certo tempo, a fim de ter como substituir as vestes usadas ao escapulir, o que aumentaria um pouco a probabilidade de sucesso em ocultar-se dos caçadores de recompensas que certamente iriam procurá-lo.


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terça-feira, 14 de junho de 2011

O vestuário dos escravos no Brasil - Parte 1

Não é tarefa simples detalhar o que vestia a "gente comum" no período colonial, já que, sob muitos aspectos, há uma falta crônica de fontes documentais. Uma vez que a maioria das pessoas não sabia escrever, também não podia deixar anotações, diários e outros papéis que, de outro modo, seriam fontes preciosas de informação. Arquivos ainda existentes são, quase sempre, incompletos e tiveram, por muito tempo, conservação inadequada, o que significa dizer, bem claramente, que em muitos casos os documentos restantes são ilegíveis e, por isso mesmo, virtualmente inaproveitáveis. Em um cenário desses, entende-se que determinar o que vestiam os escravos não é muito fácil.
Temos, no entanto, alguns testemunhos que ajudam a iluminar a questão. Um deles vem de André João Antonil, padre jesuíta que repreende os senhores de engenho que não dão vestuário adequado a seus escravos:
"Se o negar esmola a quem com grave necessidade a pede, é negá-la a Cristo Senhor nosso, como ele diz no Evangelho, que será negar o sustento e o vestido ao seu escravo? E que razão dará de si quem dá serafina e seda e outras galas às que são ocasião da sua perdição, e depois nega quatro ou cinco varas de algodão e outras poucas de pano da Serra a quem se derrete em suor para o servir, e apenas tem tempo para buscar uma raiz e um caranguejo para comer?" (¹)
Desse trecho extraímos algumas informações importantes, como o tipo de tecido de que se fazia a roupa de um escravo que tinha a "boa sorte" de ter um senhor que se preocupava com isso (algodão e pano da Serra, ou seja, tecidos de baixo preço) e a quantidade fornecida (quatro ou cinco varas, lembrando que uma vara corresponde a 1,10 m). Pelo mesmo trecho ficamos sabendo que no cenário colonial havia, eventualmente, outros tecidos disponíveis (seda e serafina, um tipo de tecido de lã estampada), bem mais sofisticados, mas seu destino, como Antonil sugere, era outro.
Acontece que há um outro lado a observar. Se é verdade que, a partir da obra de Antonil podemos deduzir que, pelo menos nos engenhos, havia escravos submetidos a andar maltrapilhos, sabe-se também que a indumentária da população colonial pobre não era, igualmente, das mais favoráveis - desse assunto teremos oportunidade de tratar futuramente, em outra postagem.
O livro de Antonil tem sua edição datada de 1811, no início do século XVIII. Já no século XIX, mais precisamente em 1º de maio de 1822, Saint-Hilaire (naturalista francês que percorreu boa parte do Brasil), anotou ter encontrado um grupo de "escravos novos", ou seja, aqueles recentemente chegados da África, em um rancho de tropeiros, a caminho de uma fazenda onde deveriam trabalhar. Diz ele:
"[...] No rancho ainda permanecia um lote de negros e negras novos que um feitor conduzia a uma fazenda vizinha de Resende.
Todos eles usavam roupa nova e as mulheres tinham para vestir-se uma coberta de pano azul. Trajavam camisa de algodão e saia de cor, os homens punham carapuça de lã vermelha, camisa e calção de algodão grosso. Ontem ao anoitecer estenderam esteiras no chão e deitaram-se uns ao lado dos outros, envoltos em cobertores." (²)
Percebe-se facilmente uma grande diferença entre o que deve ter visto Antonil nos engenhos de açúcar e o que registrou Saint-Hilaire. O que não se se sabe, nesse caso, é quanto tempo se esperava que essas roupas novas durassem. Afinal, Debret, em obra mais ou menos contemporânea, registrou tanto escravos com roupas rasgadas como outros até bem vestidos.  Não que a situação dos escravos houvesse melhorado muito, mas é fato que, gradualmente, alguns senhores começaram a achar constrangedor que seus escravos andassem em trapos. Prover roupas decentes não era, portanto, simplesmente uma questão de humanidade. Era a honra dos escravocratas que estava em jogo.

Mercado de escravos do Valongo, de acordo com Debret (³).
Observe o vestuário dos escravos: a imagem é mais poderosa que quaisquer palavras!

(1) ANTONIL, André João. Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas, pp. 26 e 27 na edição original de 1711.
(2) SAINT-HILAIRE, Auguste de. Segunda Viagem a São Paulo e Quadro Histórico da Província de São Paulo. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 125.
(3) DEBRET, J. B. Voyage Pittoresque et Historique ao Brésil Tomo 2. Paris: Firmin Didot Frères, 1835. O original pertence à Brasiliana USP; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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domingo, 12 de junho de 2011

Nozinhos de Santo Antônio

Li há poucos dias um trechinho bem interessante de Machado de Assis, que me deu o que pensar. Compartilho-o com você, leitor:
Indague quem quiser o motivo histórico deste foguetear os três santos, uso que herdamos dos nossos maiores; a realidade é que, não obstante o ceticismo do tempo, muita e muita dezena de anos há de correr, primeiro que o povo perca os seus antigos amores. Nestas noites abençoadas é que as crendices sãs abrem todas as velas. As consultas, as sortes, os ovos guardados em água, e outras sublimes ridicularias, ria-se delas quem quiser; eu vejo-as com respeito, com simpatia, e se alguma coisa me molestam é por eu não as saber já praticar. Os anos que passam tiram à fé o que há nela pueril, para só lhe deixar o que há sério; e triste daquele a quem nem isso fica: esse perde o melhor das recordações. (*)
Veja, Machado (em 1878, que fique bem entendido) diz que muito tempo haveria de passar até que o povo perdesse o encanto pelas superstições relacionadas aos festejos juninos. Minha pergunta é: isso já aconteceu?
Não tenho como discutir o que seguramente persiste em ambientes rurais. No entanto, nos conglomerados urbanos, já é outra coisa. Há festas juninas por toda parte, incluindo escolas e clubes, mas são movidas por propósitos que vão desde a simples necessidade de convívio social até o imperativo do levantamento de fundos para alguma causa filantrópica. Não se incluem, portanto, no panorama da preservação pura e simples de tradições populares, que é o objeto de nossa investigação. Quero lembrar, por outro lado, que não estão em discussão aqui as crenças e práticas estritamente religiosas de quem quer se seja, mesmo porque não fazem parte do campo de atuação deste blog.
Mastro de Santo Antônio, encontrado ao lado
da capelinha a que a postagem se refere
Ora, em busca de algum vestígio das ditas tradições a que poderíamos chamar "folclóricas", lembrei-me de que, há muitos anos, em um colégio da cidade em que morava, havia um grupo de alunas que, para levantar recursos para a festa de formatura, vendia "nozinhos de Santo Antônio". Eram pedaços de fita pelos quais pagava-se uma pequenina quantia, nos quais devia o(a) comprador(a) dar um nó enquanto pronunciava o nome da "pessoa amada", que, supunha-se, estaria devidamente amarrada também. Após esse procedimento, as fitas eram devolvidas às vendedoras, que assumiam o solene compromisso de, no dia de Santo Antônio (13 de junho), levá-las à capela correspondente, para assegurar que o santo obrasse em favor dos donos ou donas das fitas. O mais engraçado é que, em consequência desse cínico ritual, havia infelizes que eram amarrados por duas, três ou mais pessoas, resultando daí um verdadeiro nó que Santo Antônio dificilmente poderia desatar!
Pode parecer um arroubo de ceticismo, mas quis voltar à tal capelinha de Santo Antônio, não para desatar alguém - jamais me dei ao trabalho de brincar com essa tolice, por mais que colegas insistissem - mas para verificar se Machado tinha ou não razão. Achei a igreja fechada, o que é significativo, pois em outros tempos, nos dias que antecediam 13 de junho, havia muita gente por lá o tempo todo, tanto que as emissárias dos nozinhos tinham uma certa dificuldade em depositá-los aos pés da imagem do santo que se acreditava casamenteiro. E, embora uma faixa na entrada avisasse que haveria quermesse em honra de Santo Antônio, o cenário, para dizer a verdade, não era de entusiasmar. A conclusão óbvia é que, ao menos ali, é bem possível que uma ou outra pessoa ainda se atenha às velhas tradições, mas, como regra geral, elas desapareceram. Não tenho motivo para crer que a situação seja muito diferente em outros centros urbanos.
Então, leitor, se era esse tipo de prática que Machado de Assis tinha em mente, acho que é até de se comemorar que tenha declinado. Talvez estejamos precisando muito nesse país de uma boa dose de fria racionalidade em lugar de crendices, por mais românticas que pareçam. Entretanto, é bom dizer que isso não precisa atingir os doces das festas de junho, particularmente o de batata-doce, meu favorito. Eis aí uma tradição digna de longevidade!

(*) Notas Semanais, 16 de junho de 1878.


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quinta-feira, 9 de junho de 2011

Por que tardou a descoberta de ouro no Brasil Colonial

Se havia alguma coisa que os conquistadores portugueses desejavam, acima de qualquer outra, encontrar em terras brasileiras, era ouro, sem dúvida. Isso desde os primeiros momentos da colonização. No entanto, como qualquer escolar sabe muito bem, a descoberta de ouro demorou quase duzentos anos para ocorrer - uma eternidade, se forem consideradas as necessidades prementes da Metrópole lusitana.
A questão é: Por quê?
Antes de mais nada, diante do imenso território brasileiro completamente desconhecido, pode-se dizer que os exploradores procuravam metais preciosos como se tivessem os olhos vendados. Para quem ousava enfrentar o desconhecido, as florestas e rios pareciam sempre iguais e, nessa situação, como identificar territórios já percorridos? Verdade é que indígenas escravizados mostravam muitas vezes as rotas que conheciam no "sertão", mas com os recursos técnicos da época era muito difícil, senão impossível, que homens rudes (como eram quase sempre os colonizadores) pudessem traçar mapas precisos, permitindo o retorno a um lugar que se considerasse com bom potencial aurífero. Diante disso, era comum que bandeirantes retornassem a São Paulo, ao final de uma expedição de apresamento de índios, contando maravilhas sobre supostas riquezas do interior, mas voltar ao local descrito era tarefa cujo sucesso, em grande parte, dependeria mais da sorte do que de qualquer outro fator. Deve-se acrescentar ainda que supostos especialistas na prospecção de metais preciosos, enviados ao Brasil por ordem da Coroa, mostraram-se em absoluto ineptos para a tarefa que deles se esperava.
Imagem idealizada de um bandeirante, de
acordo com monumento na cidade de Amparo - SP
Alguém levantará talvez a questão de que, nesse aspecto, os espanhóis obtiveram precocemente sucesso, por oposição ao que ocorria com os portugueses em terras do Brasil (ou que viriam a ser reconhecidas como sendo do Brasil posteriormente, já que não o eram pelo Tratado de Tordesilhas). Deve-se notar, todavia, que se é fato que as terras de Espanha renderam logo metais preciosos, isso é devido em grande maneira ao fato de que os invasores depararam-se com civilizações muito complexas e, sob muitos aspectos, tecnologicamente desenvolvidas, que não apenas conheciam as jazidas mas já as exploravam sistematicamente, o que facilitou muito o processo de "descobrimento".
Finalmente, é bom frisar que os famosos bandeirantes de São Paulo não estavam, a priori, tão interessados em achar ouro quanto em "descer índios" do sertão, que não apenas escravizavam para trabalhar em suas lavouras como também vendiam para outras regiões do Brasil. Foi somente com a insistência dos monarcas portugueses que alguns se dispuseram a procurar ouro e pedras preciosas, uma atividade para a qual não tinham quase nenhum conhecimento. É amplamente sabido que nessa empreitada os poucos escravos africanos que acompanhavam as bandeiras tiveram papel importante, já que conheciam métodos de extração de ouro em rios e córregos, coisa ignorada por seus senhores.
Há depoimentos que dão conta de que, na região de Cuiabá, chegou-se inicialmente a escavar a terra com pedaços de pau e até com as mãos para retirar ouro. Mais divertido ainda só mesmo o relato de que o bandeirante Antônio de Almeida Lara teria descoberto uma considerável quantidade de ouro, virtualmente à flor da terra... ao cair do cavalo.


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terça-feira, 7 de junho de 2011

Da Índia? Não, da América do Sul!



Pode parecer estranha a presença destes simpáticos roedorezinhos em um blog dedicado à História e assuntos correlatos. Mas não é. Os europeus que chegaram à América em fins do século XV supunham que haviam encontrado um caminho para as Índias navegando para o Ocidente e, em sua essência, a ideia era correta, não fosse pela existência de um "pequeno obstáculo" na rota, ou seja, o Continente Americano. Por essa razão, durante algum tempo, espécies animais e vegetais originárias da América foram chamadas "da Índia" ou "das Índias" e, em alguns casos, o nome equivocado sobreviveu, como ocorre com o porquinho-da-índia, cuja designação incorre em erro tanto taxionômico quanto geográfico, já que o serzinho herbívoro não é nem porco, nem da Índia...
Há evidências de que o porquinho-da-índia (Cavia porcellus) é originário dos países andinos, preferindo viver em áreas de vegetação rasteira. Ocorre que, pela época da invasão espanhola ao Império Inca, comandada por Francisco Pizarro, já era domesticado e criado em cativeiro e,  ritualmente, era sacrificado sempre que se desejava obter dos deuses colheitas satisfatórias, além de servir de complemento à alimentação das camadas mais pobres. Sabe-se também que causou sensação ao ser levado à Espanha, do mesmo modo que muitas outras espécies até então desconhecidas na Europa. Usados em laboratórios para experimentos científicos, os porquinhos-da-índia têm hoje muitos admiradores, de preferência não mais como especialidade culinária (assim espero), mas como animaizinhos de estimação. Ótimo! Portanto, longa vida aos porquinhos-da-índia (o que, nessa espécie, significa mais ou menos uns sete anos).

Paciente e herbivoramente, esse espécime devora seu alimento...



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domingo, 5 de junho de 2011

Abastecimento de água - sistema de abastecimento inaugurado em Piracicaba em 1887

Fachada do Museu
da Água de Piracicaba
Como tornar viável a captação da água de um grande rio, levando-a até os moradores de uma cidade? Um modelo interessante de resposta a essa questão foi inaugurado em Piracicaba - SP, em 26 de maio de 1887, ou seja, há recentemente completos 124 anos.
Arranjos feitos pela Câmara Municipal com empresários (Frick e Zanotta) conduziram à concretização do projeto de retirar água do rio Piracicaba e bombeá-la para a cidade, numa iniciativa que era bastante moderna para o Brasil da época.

Vista do aqueduto que fazia parte
das instalações
inauguradas em 1887
A estação de captação e bombeamento foi construída ao lado do famoso "véu da noiva" (salto do Piracicaba), com as edificações necessárias para comportar todo o maquinário exigido. Atualmente, funciona no local o Museu da Água, que certamente vale uma visita, por mostrar não somente as instalações e máquinas da época como também outros equipamentos usados ao longo do século XX. Há, além disso, aquários nos quais podem ser observados peixes do rio Piracicaba, tudo muito organizado e com explicações facilmente compreensíveis. É, sem dúvida, um belo exemplo de preservação do patrimônio histórico, sem descuidar da instrução quanto a questões da atualidade, como é o caso da utilização responsável dos recursos hídricos.

Interior do aqueduto, Museu da Água de Piracicaba

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Abastecimento de água - dos aguadeiros às torneiras públicas

Na postagem anterior referi a existência de grandes chafarizes na maioria das cidades coloniais brasileiras. Certamente esse não era o único modo de suprir as necessidades de água nos núcleos urbanos, daí incluírem-se, portanto, entre outros meios, os poços e fontes naturais, quando elas estavam disponíveis.
À medida que as cidades cresceram em população, outras opções tiveram de aparecer. Na Capital do Brasil Império, a cidade do Rio de Janeiro, bem como em outros lugares, os aguadeiros, geralmente escravos, eram encarregados de buscar água em grandes tonéis, atendendo à casa em que serviam ou então, o que não era incomum, vendendo água nas ruas. Com isso, quem não tinha um escravo e também não queria ir buscar água, tinha a possibilidade de comprar de alguém que fazia a venda de porta em porta. Não é sequer necessário lembrar que, com o declínio do sistema escravista, tal forma de abastecimento de água também começou a desaparecer.
As alternativas variaram bastante, mas a tendência geral foi buscar (ao menos nas localidades mais progressistas, beneficiadas pela fase dourada da economia cafeeira), algum método que contemplasse simultaneamente o abastecimento do maior número de pessoas com um padrão considerado satisfatório de higiene (esse assunto começava a entrar em pauta), envolvendo algum tipo de canalização de água, a partir do que se esperava que a rede viesse, por iniciativa da comunidade, a estender-se amplamente. Foi nesse quadro que muitas cidades tiveram as torneiras públicas, que os moradores continuavam a chamar de chafarizes, mas que tinham um aspecto bem diferente daquele exibido pelos congêneres do século anterior.
Para quem se interessar pelo assunto e quiser ver pessoalmente, localizei três dessas torneiras públicas que ainda podem ser vistas, em diferentes estados de conservação, conforme as fotos abaixo evidenciam. Estão situadas nas cidades paulistas de Jaguariúna, Amparo e Socorro.

1.Torneira pública de Jaguariúna


Das três, é a que está em pior estado, fora do lugar em que foi originalmente instalada e, para quem desconhecer o assunto, dificilmente lembrará a utilidade que já teve. Pode ser vista junto à parada de ônibus ao lado da Matriz Centenária de Santa Maria . Data de 1902.

2. Torneira pública de Amparo


As torneiras públicas de Amparo datam de c. 1897. Uma delas está no Jardim Público (também do século XIX) e ainda é utilizada. Merece bem uma restauração. Água encanada, em Amparo, foi usada a partir de 1902.

3. Torneira pública de Socorro


É, de longe, a mais bem conservada. Muito bonita, esteve em uso nos inícios do século XX. Funciona perfeitamente.