domingo, 21 de novembro de 2010

Futebol no Brasil no início do Século XX - Os torcedores

"- Papai, você me dá cinco mil-réis, para eu ir hoje ao futebol?
O velho olhou o filho. Olhou a sua adolescência estúpida e forte, olhou seu mau feitio de cabeça; olhou bem aquele último fruto direto de sua carne e de seu sangue; e não se lembrou do pai. Respondeu:
- Dou, meu filho. Dentro em pouco, você terá."
Lima Barreto, Histórias e Sonhos

Esta postagem irá revelar a você, leitor, que traje seria apropriado para assistir a um "match" em 1914 - fica como orientação, para o caso de alguma viagem no tempo... Observe estas imagens, publicadas em um número de "A Cigarra":
A legenda diz: "Aspectos das arquibancadas do Velódromo, por ocasião dos últimos matches de foot-ball ali realizados pela Associação Paulista de Sports Athleticos. Fotografias tiradas especialmente para "A Cigarra"."
Senhoras, senhores, moças, rapazes, meninas e meninos, todos bem compostos, usando os imprescindíveis chapéus (até com plumas...), tendo os olhos colados na bola que não vemos na foto, mas bem podemos imaginar. Mas, como já disse em postagem anterior, não devemos nos enganar com essas imagens impecáveis divulgadas para a "boa sociedade", supondo que toda gente assistia às partidas com a mais irreprochável conduta. Aliás, havia quem não tivesse opinião das mais favoráveis sobre o novo esporte. Que se veja, sobre isso, o que escreveu Lima Barreto:
"Das coisas elegantes que as elegâncias cariocas podem fornecer ao observador imparcial, não há nenhuma tão interessante como uma partida de football.
É um espetáculo da maior delicadeza em que a alta e a baixa sociedade cariocas revelam a sua cultura e educação." (*)
É claro que o autor está sendo irônico; basta prosseguir na leitura, notando o que o escandalizado escritor afirma sobre a conduta das senhoras torcedoras:
"As senhoras que assistem, merecem então todo o nosso respeito.
Elas se entusiasmam de tal modo que esquecem todas as conveniências.
São as chamadas “torcedoras” e o que é mais apreciável nelas, é o vocabulário.
Rico no calão, veemente e colorido, o seu fraseado só pede meças ao dos humildes carroceiros do cais do porto.
Poderia dar alguns exemplos, mas tinha que os dar em sânscrito.
Em português ou mesmo em latim, eles desafiariam a honestidade: e é, por um, que me abstenho de toda e qualquer citação elucidativa." (*)
Ora, meu leitor, malgrado os desafetos, é preciso dizer que o futebol ia ganhando público, começava a tornar-se espetáculo, podia cobrar ingressos e, paulatinamente, abandonar os modos britânicos para fazer-se brasileiro.
A propósito, essa curiosa especiação, o surgimento de um jeito brasileiro de jogar, em parte pela distância física e de comunicação em relação ao centro originador do esporte, traria ainda resultados excelentes. Era inútil invectivar jogadores e torcedores. A mania de chutar bola caíra, irreversivelmente, no gosto do povo, ocupando espaço cada vez maior na imprensa e levando cada vez mais gente aos locais de prática.

(*) Lima Barreto. "Vida Urbana" (artigo publicado originalmente em CARETA, no dia 4 de outubro de 1919).


quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Futebol no Brasil no início do Século XX - A final do Campeonato Paulista de 1903 (Parte 2)

Na postagem anterior tratei de como foi divulgada a partida final do Campeonato Paulista de Futebol de 1903. É bom explicar que o campeonato tivera sua primeira edição no ano anterior, 1902. Chega a hora, porém, da grande final de 1903. A edição da última semana de outubro da revista Vida Paulista anunciava o "match", como então se dizia, para o Velódromo Paulistano, que desde 1901 recebia jogos de futebol. Entretanto o número seguinte relata a partida acontecendo no "Parque da Antarctica". Havia, na época, poucos lugares para a prática de futebol em São Paulo, e um dos mais convenientes era o campo que existia em uma área de esporte e lazer pertencente à Companhia Antarctica Paulista, por isso mesmo chamado de "Parque da Antarctica". Isto soa familiar? O caso é que, no início do século, a empresa proprietária alugava o campo de futebol para as equipes que começavam a surgir e não tinham um local apropriado para mandar seus jogos, e eis porque a final do campeonato de 1903 também acabou sendo jogada lá. A título de informação, esse campo de futebol foi definitivamente vendido ao Palestra Itália em 1920.
Voltemos à final, apreciando o relato publicado na revista Vida Paulista, Ano 1, nº 8, de novembro de 1903:

"Como prevíamos, foi um verdadeiro sucesso o match de desempate do campeonato deste ano.
Domingo passado, às 3 e meia horas da tarde, entravam, no campo do Parque da Antarctica, os valorosos teams do São Paulo Athetic e do Athletico Paulistano, sendo recebidos com uma prolongada salva de palmas.
Dado começo ao jogo pelo referee sr. Friese, o team do Athletic mostrou logo a sua superioridade ao adversário. Um ataque fortíssimo muito bem combinado entre Miller, Pool e Boyes; uma defesa maravilhosa, admiravelmente sustentada por Jeffery, Robinson e Hoddkis.
No Paulistano não se notava o mesmo: o ataque esteve indeciso e fraco, salvando-se apenas Ibanez e Sampaio, que muito trabalharam, a defesa concentrava-se toda, quase que exclusivamente em Geraldo, que jogou extraordinariamente bem, merecendo, por assim dizer, as honras do dia. Mais de uma vez salvou brilhantemente o seu goal.
Apesar dessa superioridade visível do team do Athletic, o Paulistano conseguiu marcar um goal no primeiro half-time, sem que o conseguisse o Athletic.
Foi um verdadeiro delírio, quando o Paulistano marcou o goal!
Palmas, vivas e bravos, ecoavam de todos os pontos do Parque, completamente cheio de espectadores.
De momento a momento ouvia-se o canto de guerra do Paulistano, como que animando e encorajando seus jogadores a prosseguirem na luta travada.
O Athletic não esmoreceu. No segundo half-time, o jogo foi todo seu. O ataque fortaleceu-se e a defesa foi mais vigorosa. Pool conseguiu marcar dois goals para o seu team, sendo entusiasticamente aplaudido.
E assim terminou esse memorável match com a vitória do Athletic por dois goals a um.
Terminado o jogo, foi entregue a taça ao sr. Charles Miller, captaim (sic) do Athletic, em meio de uma entusiástica salva de palmas."

Então, leitor, finda a partida, é tempo para nossos comentários.
1) Muito educados os torcedores que, em 1903, aplaudiram a entrada de ambas as equipes, não? É quase inacreditável, mas no campo do Velódromo Paulistano havia uma placa em que se lia "Proibido Vaiar".
2) Note o juiz (referee) e o capitão (captain!) sendo chamados de "sr." (senhor)!
3) Perceba que não há referência a jogadores de meio-campo - só se fala em atacantes e defensores, o que demonstra, talvez, a pouca intimidade do articulista com questões futebolísticas, além de, por suposto, indicar alguma coisa sobre as táticas da época. É claro que as designações das posições ocupadas pelos jogadores, totalmente em inglês, podiam bem servir de orientação para os neófitos no esporte. Aliás, a narrativa toda da partida nos deixa com aquela sensação de quem lê redações escolares do tipo "Festa de Aniversário", "Férias na Fazenda do Vovô" ou "Final de Semana na Praia".
4) Muito interessantes os atletas citados: no São Paulo Athetic todos têm nomes britânicos, enquanto que no Paulistano menciona-se Ibanez, Sampaio e Geraldo. Presume-se que esse fato acrescentasse alguma pimenta ao espetáculo.
5) "Delirante" a descrição das comemorações relacionadas ao gol do Paulistano. "Palmas, vivas e bravos" parecem antes relacionados a um espetáculo operístico que a um jogo de futebol, pelo menos de acordo com nossos hábitos do século XXI.
6) Vem o ponto culminante, quando novamente a plateia dá uma demonstração de civilidade, aplaudindo a premiação, quando Charles Miller (o famoso "dono da bola"), recebe a taça, por ser o capitão de sua equipe.
Teriam as coisas acontecido mesmo assim? Ou estava a imprensa divulgando apenas o que se considerava apropriado, aquilo que pessoas refinadas esperavam ler em sua publicação favorita? Seja lá como for, logo veremos que nem tudo no nascente futebol se fazia com aplausos e polidas expressões de encorajamento. O esporte iria bem depressa conquistar multidões de adeptos em todo o Brasil, e os costumes dos torcedores passariam, gradualmente, por considerável mudança. Mas isso já é assunto para uma outra postagem.


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terça-feira, 16 de novembro de 2010

Futebol no Brasil no início do Século XX - A final do Campeonato Paulista de 1903 (Parte 1)

Esta pequena série será, como o título indica, sobre futebol. Em 1903, leitor, o campeonato (em São Paulo) estava terminando. Mas, naqueles dias, o futebol ainda não era o esporte absolutamente popular que conhecemos. Foi ganhando espaço aos poucos. A elite paulistana tinha outros interesses, de modo que campeonatos de esgrima, regatas (no rio Tietê ou no mar, em Santos) ou corridas de cavalos eram mais apaixonantes. Não obstante, o "foot-ball" já começava a conquistar espaço, literalmente, nas páginas de revistas e jornais. Espaço reduzido, é verdade, quase sempre constituído por pequenas notas em algum canto de página, numa linguagem algo desajeitada, por causa dos muitos termos ainda em inglês, ou de eventuais tentativas de adaptação.
O que temos aqui é uma noticiazinha que apareceu na revista Vida Paulista, Ano 1, nº 7, de outubro de 1903:

"Está terminado o campeonato de 1903.
Como no ano passado os gloriosos teams do São Paulo Athletic Club e do Club Athletico Paulistano, têm de jogar um match de desempate para a conquista da taça, pois ambos os teams estão com 13 pontos.
Realiza-se amanhã, às 3 e meia horas da tarde, no Velódromo, esse interessante match, do qual falaremos no próximo número."

Observe o total de pontos conquistados - ele revela muito sobre o número de equipes que deviam disputar a competição. Observe também o local da partida - o velódromo. Não há, além disso, na linguagem de quem escreve, a empolgação que estamos acostumados a observar às vésperas de uma final.
Não, o futebol ainda não era para as multidões de torcedores. Isso fica evidente pela necessidade de dar ao público a informação da hora e do local da última partida do campeonato, e nós bem sabemos que, quando as pessoas estão realmente interessadas em alguma coisa, falam disso o tempo todo e quase não conseguem mudar de assunto. Quem é que já viu um torcedor realmente apaixonado precisando comprar um jornal ou revista para saber onde e a que horas seu time vai jogar?
Ficou curioso quanto ao resultado da "final"? Disso tratar-se-á na próxima postagem!

domingo, 14 de novembro de 2010

Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós!

Aprendemos, quando crianças, que fadas ou bruxas podem usar determinadas palavras mágicas que, apenas pronunciadas, têm o poder de "fazer acontecer" qualquer coisa que se queira. Quando crescemos, temos a difícil tarefa de desaprender tudo isso. A duras penas, percebemos que é preciso muito mais que palavras mágicas para que aquilo que desejamos venha a ser realidade. Entretanto, é curioso observar que, em se tratando de política, parece haver muita gente crescida que ainda acredita em palavras mágicas - é só ver as listas de "eu prometo que...", "eu farei...", ou ainda "no meu governo..." que proliferam nas campanhas eleitorais. Resta saber se os crentes em contos de fadas são eleitores ou candidatos, ou se há entre eles um verdadeiro e misterioso pacto do faz-de-conta.
No belíssimo poema "O Navio Negreiro", de 1869, o jovem Castro Alves (que não jogava no time do faz-de-conta) escreveu:

"Existe um povo que a bandeira empresta
Pra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E a deixa transformar-se nessa festa,
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio, Musa... chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto!...

Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que da liberdade após a guerra
Foste hasteado dos heróis na lança,
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!..."

Reconheço que, para o leitor contemporâneo, a linguagem pode, talvez, soar difícil. Mas, em essência, o que o poeta afirma é que a bandeira do Brasil, com toda a beleza natural que representa, encontra-se, no momento em que escreve, manchada pela infâmia da escravidão. E, num arroubo de coragem, chega a dizer que melhor teria sido ver a bandeira despedaçada na guerra (da Independência, provavelmente), que tê-la agora transformada em mortalha para os escravizados, já que o objetivo do poema é descrever a brutalidade do tráfico de africanos e o horror do quotidiano em um tumbeiro, ou seja, em um navio da "carreira da África".
Como se sabe, a escravidão foi formalmente abolida em maio de 1888. No ano seguinte, em 15 de novembro, proclamou-se a República. Eis que, no contexto dessa nova ordem política, adotou-se um Hino à Proclamação da República, com letra de José Joaquim de Campos da Costa de Medeiros e Albuquerque e música de Leopoldo Américo Miguez. Para efeitos práticos, a data de publicação do Hino no Diário Oficial foi a de 21 de janeiro de 1890, ou seja, pouco mais de dois meses após a proclamação da República e pouco menos de dois anos após a Abolição.
Na segunda estrofe do Hino, encontram-se estas palavras:

"Nós nem cremos que escravos outrora,
Tenha havido em tão nobre país
Hoje o rubro lampejo da aurora,
Acha irmãos, não tiranos hostis.
Somos todos iguais, ao futuro
Saberemos unidos levar,
Nosso augusto estandarte, que puro,
Brilha avante, da Pátria no altar."

Para mim, há aqui um evidente diálogo entre o poema de Castro Alves e as palavras do Hino à Proclamação da República. Se Castro Alves invectiva a escravidão e todo o seu sistema de práticas cruéis, o Hino afirma ser a escravidão uma memória remota, substituída pela igualdade republicana. Se o Poeta dos Escravos lamenta a bandeira maculada pela escravidão, a letra de Medeiros e Albuquerque atesta a purificação do pavilhão nacional, obviamente em virtude também do advento do regime republicano.
Diga-me, leitor, seria possível em tão pouco tempo produzir-se uma tão radical mudança? Seria a proclamação da República o fiat lux da Pátria?
Entendo que, em seu entusiástico idealismo republicano, o autor quisesse, à força das palavras, mudar o País, banir até os mais tênues vestígios da escravidão, ver a nação constituir-se em uma autêntica fraternidade de cidadãos, habilitando-a a produzir um futuro brilhante. Belo intento, não há dúvida, que a maturidade política (semelhantemente ao que ocorre em termos de maturidade psicológica), tem demonstrado ser impossível só com palavras. Neste caso, a famosa expressão "sangue, suor e lágrimas" pode ser exata expressão da realidade. Prova disso é que o sonho continua algo distante mas, felizmente, não ao ponto de tornar-se impossível alcançá-lo.


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quinta-feira, 11 de novembro de 2010

E as estações ferroviárias? Como estão?

Recentemente escrevi neste blog sobre uma das maiores empresas fabricantes de locomotivas no século XIX e primeira metade do século XX, a Baldwin Locomotive Works. Volto ao assunto das ferrovias para um pequeno relatório do que tenho observado em termos de preservação das estações ferroviárias, pelo menos no que se refere ao Estado de São Paulo.
Como se sabe, as ferrovias foram privatizadas e, no momento, as sobreviventes são utilizadas para transporte de carga. Com isso, os antigos prédios das estações ferroviárias começaram a receber usos diferentes. Em alguns casos, o fato de esses edifícios serem tidos como patrimônio histórico foi levado em conta, mas em outros pode-se dizer que o abandono é total. Ainda assim, o conceito de patrimônio histórico nem sempre é bem compreendido. Há, por suposto, uma grande diferença entre restauração e reforma de um prédio. No primeiro caso, a conservação é feita segundo técnicas que estejam em conformidade com a edificação original; no segundo, tenta-se manter a aparência, sem muito cuidado em preservar as características primitivas. O resultado não poderia ser outro: com o uso de técnicas e materiais estranhos aos métodos de construção antigamente empregados, tem-se resultados algo esquisitos, embora bem intencionados.
Em linhas gerais, as estações têm sido usadas como centros culturais (felizmente, é o caso mais comum), ou para atividades comerciais, ou como depósitos, ou como moradia, ou ainda... como coisa nenhuma. Com tamanha "diversidade", como fazer um balanço da situação?
Leitor, para isso, você é o melhor juiz. Abaixo está um pequeno vídeo, com imagens de algumas das estações ferroviárias que visitei. Veja e forme sua opinião a respeito. Se você está lendo esta postagem em um leitor de feeds ou por e-mail, acesse: Estações ferroviárias em São Paulo e Minas Gerais.


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terça-feira, 9 de novembro de 2010

"Couros de jacaré" - Uma lição inesquecível

Dizemos que uma pessoa que muda facilmente de ideia é volúvel, e não costumamos atribuir um sentido positivo à palavra. Mas, às vezes, mudar de opinião é uma coisa muito boa. Vou dar um exemplo interessante.
Era o ano de 1926 e, mais especificamente, o mês de dezembro. Nessa ocasião circulava o vigésimo-quarto número da Revista Escolar, "Orgam da Directoria Geral da Instrucção Pública", destinada, portanto a professores e outros profissionais da educação.
Pois bem, uma das seções da revista chamava-se justamente "Lições de Coisas", e propunha-se a ser uma orientação prática de como professores poderiam lecionar determinados assuntos. Ora, leitor, indo logo ao que interessa, encontramos nas páginas 37, 38 e 39 uma lição com o insólito título "Couros de Jacaré". Não será preciso morrer de curiosidade, leia o trecho que transcrevo abaixo:

"Professora. - Que está você falando aí, Leonor?
Aluna. - Eu estou contando a Luísa que a Maria tem uns sapatos novos, de couro de jacaré!
A. - Será verdade?
A. - Custa a crer!
P. - Nunca devemos duvidar, sem mais nem menos, da palavra dos outros. Demais a mais, o jacaré fornece, mesmo, excelente couro.
A. - Esses sapatos devem ter custado bem caro!
P. - O couro de jacaré é, realmente, caro.
A. - Então, vale a pena criar jacarés!
P. - Essa é uma indústria nova, e da qual o Brasil poderia tirar muito proveito.
A. - Criando jacarés para aproveitar os couros?
P. - Não seria preciso nem criá-los. Temos jacarés em quantidade.
A. - Onde?
P. - Seis variedades de jacarés infestam, aos milhares, as margens do Amazonas e seus afluentes.
A. - Já ouvi mesmo contar que nessas regiões há muito jacaré.
P. - Os seringueiros dessas paragens fazem-lhes caça matando-os às centenas.
A. - E não acabam?
P. - Não, porque nascem aos milhares, multiplicam-se abundantemente.
A. - Por que os matam?
P. - Os jacarés circundam as barracas dessa pobre gente, devorando aves e animais domésticos. Bezerros e novilhas são sacrificados por essas terríveis feras.
A. - Que horror!"

E segue nesse mesmo tom, pelas páginas seguintes. 
Vamos exercitar a técnica de resumo: Couro de jacaré é muito lucrativo e, como há jacarés demais no Brasil, podemos caçá-los e ganhar dinheiro com isso, sem nenhuma preocupação, porque os jacarés nascem em grande quantidade e são animais nocivos, que prejudicam os seringueiros. Que tal? Que horror!
De onde veio essa mentalidade predatória? Sem dúvida, do hábito colonial de pilhar, para a Metrópole, tudo o que de valioso houvesse na Colônia. Triste é ver que, em 1926, portanto mais de cem anos após a independência, essa noção de que a natureza estava à disposição, para ser explorada sem maiores preocupações, não apenas ainda existia mas, grande absurdo, era ensinada.
Orgulhosamente, assumimos que nossa geração mudou de ideia e, ninguém que seja mentalmente saudável, daria agora uma aula desse tipo. Temos boas leis de proteção à fauna, que podem, todavia, ser aperfeiçoadas, e estamos, de um modo geral, preocupados em algum nível com problemas ambientais. Do alto de nossa pretensa superioridade, olhamos para o passado esquecendo que, por vezes à nossa volta, a devastação campeia alegremente, quase sem ser molestada. Repito, temos boas leis - é tudo uma questão de fazê-las cumprir. E, exigir isso é, também, uma questão de cidadania.


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domingo, 7 de novembro de 2010

Milhares de locomotivas - Parte 3

Nas duas postagens anteriores tratei brevemente da história da Baldwin Locomotive Works. Agora veremos como essa empresa relacionou-se com a expansão ferroviária no Brasil.
Conforme todo mundo sabe, o Brasil foi colonizado por Portugal. Acontece que a pequena nação ibérica tornou-se algo dependente da economia britânica e, como colônia, o Brasil foi fortemente atingido por esse fato (que se veja, sobre isso, o famoso "Tratado de Comércio e Navegação" de 1810). Mesmo tendo alcançado a independência política em 1822, o Brasil permaneceu sob a influência dominante da economia inglesa ao longo do século XIX e, por essa razão, quando as ferrovias começaram a cortar as regiões produtoras de café, viu-se logo a chegada de locomotivas a vapor provenientes da Inglaterra. Até mesmo outros equipamentos, igualmente associados à exportação cafeeira, vinham de lá, como é o caso das balanças para pesagem das sacas de café.
A despeito disso, a Baldwin Locomotive Works (que era americana), fez negócios no Brasil. Apenas como amostra, o livro History of the Baldwin Locomotive Works 1831 - 1920 apresenta,  na página 75, uma locomotiva feita especificamente para a Ferrovia D. Pedro II, no ano de 1885. Curiosamente, ela é denominada "Decapod", pois tem dez rodas.


Outra locomotiva destinada ao Brasil aparece em Illustrated Catalogue of Narrow-Gauge Locomotives, ed. de 1885, p. 20:


Não pretendo fazer uma listagem exaustiva dos negócios da Baldwin no Brasil, mas no já citado History of the Baldwin Locomotive Works podem ser encontradas as seguintes referências:
Na página 58, afirma-se que os primeiros negócios no Brasil datam de 1862-1863;
Na página 64, são mencionadas três locomotivas fornecidas para a Ferrovia União Valenciana (RJ);
Na página 68, há referência a uma locomotiva tipo "Mogul", denominada "Príncipe do Grão-Pará", fornecida para a ferrovia D. Pedro II, no ano de 1876;
Na página 74, é citada uma encomenda de três locomotivas pela ferrovia Cantagalo feita em 1882, que foi entregue no ano seguinte. A viagem inaugural deu-se em 17 de outubro de 1883, cobrindo oito quilômetros até Boca do Mato, com velocidade de 24 quilômetros por hora - muito interessante!
Na página 75 há referência à já citada  "Decapod" da Ferrovia D. Pedro II;
Na página 77, finalmente, é relatada a entrega de duas máquinas a vapor para ferrovia urbana no Brasil, uma para a "Corcovado Railway", entre 1888 e 1889, outra para a Ferrovia Príncipe do Grão-Pará.

Locomotiva destinada à ferrovia urbana "Corcovado Railway"

Seguramente houve outras encomendas, já que o catálogo que consultei relata locomotivas até 1885, e eu encontrei em Jaguariúna, S.P.,  duas locomotivas do mesmo fabricante, porém de datas posteriores:


Estão aí, como se pode ver, as identificações, respectivamente, da locomotiva 37.710, de 1912, e da locomotiva 54.058, de 1920. Essas informações são muito relevantes, principalmente para quem tem interesse pelas antigas ferrovias brasileiras, mas é preciso ir além.
Antes de mais nada, esses dados mostram que a maré da economia mundial estava já começando a mudar. O centro econômico do mundo deixaria, em pouco, de ser a Europa, para mudar-se para os Estados Unidos. E os negócios que o governo do Brasil fazia no exterior eram um reflexo disso.
Mas há um outro aspecto a ser considerado: não teria passado pela cabeça de ninguém fabricar locomotivas por aqui mesmo? É claro que sim! Várias foram as tentativas, algumas até muito bem-sucedidas. No entanto, jamais alguém, nesse tempo, tornou-se o fundador de uma empresa similar à Baldwin Locomotive Works. Por quê?
Leitor, o assunto é complexo, mas, dentre outras causas, destacam-se:
1) A malha ferroviária brasileira era infinitamente menor que a americana, por exemplo, o que já explica a inexistência de um mercado interno considerável;
2) A falta de mão de obra nacional qualificada para o trabalho em um ramo de atividade que exigiria amplo conhecimento (as ferrovias aqui instaladas geralmente traziam técnicos estrangeiros para trabalhar);
3) A ideia de que era mais rápido, fácil e prático importar (que ainda persiste em alguns setores até hoje);
4) A noção de que, ao fim e ao cabo, o produto importado era sempre melhor (outro conceito muito antigo que ainda perdura, vindo desde o tempo em que prevalecia o pensamento de que tudo o que prestava era "do reino"...).
Vamos concluir: em muitos setores da economia brasileira tudo isso é, felizmente, passado. Mas é preocupante que, na mentalidade popular, importado seja sinônimo de qualidade e, mais que isso, que em alguns ramos tenhamos falta de trabalhadores devidamente treinados. Há, portanto, tantos anos depois das primeiras ferrovias, muito trabalho a fazer, inclusive no que se refere à infraestrutura de transportes.


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