segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Sobre a origem da propriedade privada entre os antigos romanos

Não são poucas as controvérsias sobre as origens da propriedade privada neste planetinha em que nós, humanos, vivemos, sem outro lugar para escolher. Quem teria sido o primeiro a colocar um arremedo de cerca ao redor de uma pastagem ou de um terreno fértil para cultivo e dizer: "Isto é meu"? Ou quem teria se apropriado de parte de um rebanho de cabras ou ovelhas e alegado ser o único dono dos animais? 
Não sabemos. É mais provável que o fenômeno tenha ocorrido em diferentes localidades (quase) simultaneamente. Mais intrigante é que essa ideia ganhasse terreno (desculpem o trocadilho), e que a maioria dos sem propriedade engolisse a exclusividade para os poucos que se arrogavam donos de alguma coisa. Não se pode descartar o uso de argumentos relacionados à força física, acrescida de paus, pedras e uma prole numerosa, capaz de defender a autodeclarada propriedade particular de um patriarca. Mais sutil, e não menos persuasivo, poderia ser o argumento de que o direito ao uso exclusivo da terra, por exemplo, seria derivado da vontade dos deuses, em especial quando vindo de alguém que ostentava status sacerdotal e, portanto, capaz de estabelecer comunicação com supostas divindades. 
Quando Roma já era República há séculos, Cícero (¹), político, jurista e orador famoso (²), argumentou que, segundo a natureza, não existia absolutamente nada no mundo que merecesse o conceito de propriedade privada. Contudo, haveria, ainda de acordo com Cícero, algumas razões para explicar o direito de alguns (minoria), em detrimento de outros (quase sempre a maioria): antiguidade da ocupação por um grupo ou família de um campo anteriormente desocupado, ou a ocupação de terras mediante conquista em campo de batalha, além de leis que legitimavam a propriedade privada, dentre outros fatores (³). Cícero não devia desconhecer que, no passado, o patriciado romano fora muito eficiente em ostentar sua pretensa origem vinculada aos semideuses fundadores de Roma para justificar a posse de terras, que, por esse motivo, era negada aos plebeus. Nada surpreendente, portanto, que, em se tratando de Roma, a reforma agrária estivesse, quase sempre, na pauta dos que, em um momento ou outro, por ambições políticas, pretenderam obter apoio popular para dominar a cidade e o mundo. 

(1) Marco Túlio Cícero, 106 a.C. - 43 a.C.
(2) Também devotado à filosofia, em particular aquela que provinha da Grécia. 
(3) Cf. De Officiis, Livro I. 

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quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

O povo queria pão

Então, leitores, imaginaram que eu iria tratar daquela famosa anedota relacionada à Revolução Francesa, não é? 
Mas não, não mesmo. A coisa aconteceu na vila de São Paulo, nos já distantes dias coloniais. Com mais exatidão, em 1638, tempo em que expedições bandeirantes ganhavam força e as autoridades locais faziam vista grossa para quem ia ao sertão capturar indígenas para escravização, ainda que, hipocritamente, sempre se procurasse dar a impressão de que, nessa matéria, as determinações reais eram cumpridas à risca. 
Em vereação do dia 11 de setembro, seguindo o procedimento de rotina, os oficiais da Câmara de São Paulo ouviram o que o procurador tinha a dizer, e o escrivão registrou:
"[...] pelo procurador [...] foi requerido aos oficiais da Câmara que este povo carecia de pão, mantimento necessário, pelo que lhes requeria mandassem pelo alcaide notificar a quem tivesse trigo, desse pão a este povo, o que visto pelos oficiais da Câmara, disseram que fariam diligência para que houvesse pão na vila [...]." (*)
Alguns pontos devem ser esclarecidos. Vejamos:

1. Por que faltava trigo
 
Muitos fazendeiros tiveram, em São Paulo, o cultivo de trigo como parte de suas lavouras para suprir as necessidades da própria família, e, havendo excedente, para venda. Foi assim no Século XVI e em parte do Século XVII. Gradualmente, porém, a produção de trigo sofreu declínio, por razões que já detalhei em uma postagem publicada neste blog em 16 de outubro de 2012, cujo título é Por que se deixou de cultivar trigo em São Paulo. Resumindo a questão, era mais fácil obter boas safras de milho e mandioca, os proprietários de moinhos cobravam taxas altas demais para moer o trigo e os comerciantes de Santos, que distribuíam para outras capitanias o trigo paulista, pareciam estar sempre de acordo em praticar os preços mais baixos possíveis ao comprar o cereal, desestimulando, assim, a produção para venda. Há conjecturas, também, de que mudanças no clima podem ter tornado a triticultura menos vantajosa.

2. A falta de trigo talvez fosse expediente de comerciantes locais para elevar o preço

Acostumados ao excelente pão de trigo, os moradores de São Paulo foram dar queixa à Câmara quanto à falta do produto no comércio local. Não é improvável que alguns comerciantes dispusessem de trigo para vender, mas que o ocultassem para que, alegando sua falta, pudessem elevar os preços (hipótese perfeitamente compatível com o que se fazia em São Paulo, na época, em relação a outros produtos - carne bovina, por exemplo).

3. A ideia era forçar quem tinha trigo a vendê-lo

Quando o procurador requeria que "quem tivesse trigo, desse pão a este povo", não estava, evidentemente, sugerindo distribuição gratuita. Era apenas a linguagem corrente do tempo para significar que não se pusessem obstáculos à venda.

4. O problema seria sanado apenas se fosse conveniente a quem detinha o mando na vila

Finalmente, segundo a Ata, os oficiais da Câmara "disseram que fariam diligência para que houvesse pão na vila". De novo, formalidade na linguagem, segundo o costume. É concebível que, já não tivessem conhecimento do problema? As diligências seriam feitas se houvesse, de fato, interesse na questão. Caso contrário, eram incluídas na Ata, e nada mais poderia acontecer. Não se necessitam muitos esforços para conjecturar quanto aos interesses maléficos e pouco altruístas que estariam ocultos nesse sumiço do trigo e, por consequência, do pão, no comércio incipiente de São Paulo no Século XVII.

(*) O trecho citado da Ata da Câmara de São Paulo correspondente à vereação de 11 de setembro de 1638 foi aqui transcrito na ortografia atual, com acréscimo da pontuação indispensável à compreensão.

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