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terça-feira, 12 de maio de 2020

Depois de um dia na colheita do café

Ramo de um cafeeiro
Nesse fim de tarde de maio, assim que o sol desaparece, a temperatura começa a cair. O rangido de carros de boi mostra que o trabalho, contudo, ainda não acabou. Logo, uma cantilena, vinda do sopé da serra, avisa que a escravaria, saindo do cafezal, volta, agrupada, sob os olhos do feitor. Cobertos de suor e poeira, repetem e repetem a cançãozinha monótona. Um carreiro passa por eles. Risos, provocações... 
Cada um traz nas costas um cesto alto com uma infinidade de pequenas esferas vermelhas. É parte da colheita do café, que os carros, com sua lentidão, não conseguiram levar totalmente ao terreiro. Lá é que deixarão os jacás.
Vem o jantarzinho habitual, um cozido de farinha de milho, um gole de cachaça. Às vezes, o serão e o pilão fazem parceria, quando há ordem para triturar o milho ou descascar o arroz. Continuam a cantar. Algum, mais inspirado, arrisca compor uns versos, enquanto os outros marcam o ritmo com os pés. Venta frio, uma fogueira aquece os que trabalham. O vento traz o aroma silvestre da mata próxima.
Hora de dormir. A senzala é trancada para evitar fugas. Ainda há conversas no pátio. Longe dos outros, um escravo olha as estrelas, que piscam, tão distantes, e lhe acendem na imaginação uma fagulha de liberdade.


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quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

A colheita do café

A transição do trabalho escravo para o emprego de mão de obra livre não foi acompanhada por grandes inovações técnicas


A colheita do café, que era o principal produto brasileiro de exportação na segunda metade do Século XIX, constituía-se em processo muito simples: os pequenos frutos maduros eram recolhidos manualmente. Elizabeth Cary Agassiz assim descreveu o que pôde observar quando esteve no Brasil em 1865: 
"Era a época da colheita e o espetáculo que tínhamos diante dos olhos era verdadeiramente pitoresco. Os pretos (¹), homens e mulheres, estavam espalhados pela plantação, trazendo às costas, amarrados às suas roupas, uma espécie de cesto feito de caniços ou de bambus. Dentro dele é que amontoam os grãos de café, uns vermelhos e brilhantes como cerejas frescas, outros já escuros e meio ressequidos, e, de quando em vez, alguns ainda verdes, não de todo maduros, mas não devendo tardar a amadurecer sobre o solo abrasado do terreiro. Pretinhos pequenos, sentados na terra ao pé dos arbustos, ajuntam as cerejas [sic] caídas, cantando um estribilho monótono que tem sua harmonia e seu encanto; um deles faz o canto e os outros o acompanham." (²)
A gradual introdução de mão de obra livre na lavoura cafeeira não veio acompanhada de nenhuma mudança significativa imediata nas técnicas de cultivo e colheita do café, observação que, aliás, pode ser estendida a algumas décadas do Século XX. Lembro-me de haver conversado há alguns anos com idosos que, quando meninos, acompanhavam seus pais, colonos europeus, no trabalho de colher o café, e todos eles foram enfáticos em afirmar que recolhiam os frutinhos que caíam ao chão, exatamente como Elizabeth Cary Agassiz declarou ter observado que crianças escravas faziam. 
A fotografia abaixo, de uma publicação datada de 1889 (³), mostra trabalhadores livres de origem europeia colhendo café em uma fazenda, na então Província de São Paulo. Os leitores, com uma simples observação, irão constatar por si mesmos a rusticidade do processo.

Colheita do café por colonos europeus (³)

(1)  Elizabeth Cary Agassiz usava os termos "escravos" e "pretos" como sinônimos; isso soa absurdo atualmente, mas era muito comum entre autores do Século XIX.
(2) AGASSIZ, Jean Louis R. et AGASSIZ, Elizabeth Cary. Viagem ao Brasil 1865 - 1866. 
Brasília: Senado Federal, 2000, p. 131.
(3) ______________ Album de Vues du Brésil. Paris: A. Lahure, 1889. O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Como era feito o plantio de cana-de-açúcar no Brasil Colonial

O Século XVIII já caminhava para o final quando José Gomes Caetano escreveu a sua Memória Sobre a Cultura e Produtos da Cana-de-Açúcar. Pretendia, com ela, mostrar as deficiências dos métodos até então empregados, tanto na lavoura da cana quanto na fabricação de açúcar e aguardente, propondo alternativas mais rentáveis. Assim é que hoje é possível ter uma visão nítida do modo pelo qual a cana-de-açúcar era plantada em terras do Brasil. Escreveu ele:
"Cada plantador de cana, segundo as suas faculdades (¹), vai com dez, vinte, quarenta ou mais escravos com enxadas, limpar todas as ervas de uma certa porção de terra, onde quer fazer aquilo a que se chama partido." (²)
Esse era o início de todo o processo. Mas deve-se notar que somente valia em caso de terras já anteriormente cultivadas. Se, no entanto, o plantio devesse ocorrer em área de mata virgem, outros seriam os procedimentos. Mas retornemos às explicações de José Caetano Gomes:
"As plantas, ervas ou capins arrancados ou cortados com a enxada, são sacudidos da terra pelos mesmos escravos, que trabalham enfileirados (...). Depois da terra capinada ou limpa de plantas, vão os escravos abrir covas com a mesma enxada, cujas covas são uma espécie de regos de duas a três polegadas de profundidade, na distância uns dos outros de um palmo a palmo e meio (...). São lançados nestes regos duas estacas de cana de palmo e meio de comprido, e se cobrem com a mesma terra que se tirou da cova." (³)
Didaticamente, portanto, o método empregado para plantio de cana-de-açúcar no Brasil Colonial podia ser assim resumido:
1. Dez a quarenta escravos limpavam o terreno;
2. Os mesmos escravos abriam covas com as enxadas;
3. Em cada cova eram postas duas estacas;
4. Cada cova era coberta com terra.
A partir daí, esperava-se que a natureza cooperasse e fizesse o restante, até que a cana estivesse crescida para a safra. Costumava-se, ao longo da fase de crescimento, mandar que escravos fizessem duas "capinas", ou seja, que removessem o mato. Não estava nos hábitos qualquer tipo de adubação. Tudo muito simples e rudimentar, conduzindo a perdas consideráveis na produção, já que, de acordo com as ideias de José Caetano Gomes, o espaço deixado entre as plantas era insuficiente e as ferramentas em uso eram demasiado antiquadas.

(1) De acordo com sua capacidade econômica que, no Brasil, era medida pelo número de escravos de que se dispunha.
(2) GOMES, José Caetano. Memória Sobre a Cultura e Produtos da Cana-de-Açúcar. Lisboa: Casa Literária do Arco do Cego, 1800, p. 2.
(3) Ibid., pp. 2 e 3.
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Um salto no tempo




Área de cultivo de cana-de-açúcar (após queimada) no interior do Estado de São Paulo. Queimar antes do corte ainda é uma prática frequente nos canaviais, sob a alegação de que facilita o trabalho e evita a presença de animais peçonhentos que poderiam ferir os trabalhadores. No entanto, acarreta sérios danos ambientais. No Século XXI.


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quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Causas do atraso da agricultura brasileira no Século XIX - Parte 2

Que tal substituir as enxadas por arados?


Até meados do Século XIX, o equipamento de uso agrícola mais moderno que frequentava a maioria das lavouras brasileiras chamava-se enxada, equipamento esse que era, usualmente, posto em funcionamento mediante o emprego da força muscular de escravos vigorosos.
Não venham me dizer, senhores leitores, que isso é inacreditável. Correspondia à rotina das plantações, independente do cultivo que se praticava.
Em O Agricultor Brasileiro, publicação já mencionada na postagem anterior, apareceu um cálculo interessante, demonstrando quanto podia fazer um escravo diariamente em seu trabalho, seguindo-se uma comparação quanto ao que se obteria no caso de se utilizar um arado, um prosaico arado, em lugar de tantos escravos na lavoura. Eis a informação do trabalho feito com enxada e a despesa estimada com escravos:
"A despesa que mais avulta na agricultura é a de braços em número suficiente para lavrar. Um trabalhador não pode lavrar mais de vinte braças quadradas por dia, trabalhado dez horas diárias [sic], e duas braças por hora; de sorte que para lavrar duzentas braças serão necessários dez trabalhadores em um dia, ou dez dias para um trabalhador. Ora, sendo escravos os nossos trabalhadores e custando cada um pelo menos oitocentos mil réis, tem-se a necessidade de empregar oito contos de réis, que produzem, ao juro de 6% ao ano, a renda de 480 mil réis, ou cerca de 1.315 réis por dia, além do sustento e risco do capital empregado nos escravos, que morrem mais cedo ou mais tarde." (¹)
Façamos uma pausa para algumas considerações. Antes de mais nada, observaram os leitores a longa jornada - dez horas - que se estimava como normal para um escravo na lavoura? Além disso, percebe-se que o "normal", da época, era mesmo o trabalho feito sempre com enxadas. Qualquer modernização nas práticas agrícolas devia parecer muito perturbadora aos fazendeiros. Observe-se também que, em 1853, quando foi publicado o primeiro número de O Agricultor Brasileiro, os preços dos escravos estavam ficando cada vez mais altos. A causa disso? O fim do tráfico de africanos, a partir da Lei Eusébio de Queirós, datada de 1850. Mas vamos em frente, com a proposta de adoção do arado para substituir as enxadas:
"Porém, se na nossa lavoura estivesse admitido o uso dos arados, grande seria a economia dos proprietários. Existem presentemente no país arados construídos para diversas sortes de terrenos, e cujos preços variam de 15 mil a 100 mil réis. Este instrumento de tão simples estrutura e de tanta duração lavra tanta terra em um dia quanta podem lavrar dez homens, pelo menos." (²)

Modelo de arado que ilustrava o primeiro número do jornal O Agricultor Brasileiro (³)
Não era recente a advertência quanto à necessidade de pôr fim à escravidão, com a adoção do trabalho livre assalariado e o uso de máquinas agrícolas que reduzissem a demanda por trabalhadores e aumentassem a produtividade. Já na primeira Assembleia Constituinte, instalada em 1823 - aquela que D. Pedro I dissolveu - a questão havia sido levantada. Quase toda mudança no Brasil do Século XIX era, contudo, morosíssima. Por que, nesse caso, seria diferente? A escravidão acabaria acabando, é verdade, mas só mesmo quando já era, na prática, insustentável.

(1) O AGRICULTOR BRASILEIRO, Ano I, nº 1, pp. 7 e 8.
O Agricultor Brasileiro era um jornal voltado para a discussão de questões relacionadas à lavoura, como pretexto para divulgar máquinas e equipamentos agrícolas vendidos pela Casa Nathaniel Sands & C., instalada no Rio de Janeiro, Rua da Alfândega, nº 20, que editava a publicação.
(2) Ibid., p. 8.
(3) Ibid. p. 7.


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