terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Quem traz os presentes de Natal? (Parte 1)

"Mas um vulto de criança surgiu na esquina, atravessou, a correr, um raio de luz e ela, mais com o coração do que com os olhos, reconheceu nele o filho.
Ainda ele vinha longe, e já a porta se abria.
Entrou esbaforido e, antes de qualquer explicação, disse arquejante:
—Olha o que eu achei na praia. Que havia de ser? nem mais, nem menos que um frangalho de sapato sem sola, com um resto de salto recomido das pedras.
—Para que trazes isto?
—Pois não sabes que, na noite do Natal, quando todos dormem, anjos descem do céu com presentes para as crianças? A gente põe um sapato perto do fogão, porque os anjos entram nas casas pela chaminé, e, de manhã, quando acorda, vai encontrá-lo cheio de presentes?  Como eu não tinha sapato saí por aí à procura de um e achei este. Está velho, mas é grande! Se os anjos o enchessem de dinheiro... nem sei!"
Coelho Neto, O Sapato do Natal in Vesperal


Engana-se quem pensa que, pelo menos no Brasil, sempre foi Papai Noel o encarregado, por ocasião do Natal, de trazer presentes às crianças. Na verdade, as referências mais antigas apontam para um aspecto bem popular da religiosidade, uma crença quase roceira, ainda que vivenciada também nas regiões urbanas, a de que, na Noite de Natal, vinha o próprio Menino Jesus deixar brinquedos e doces para os pequenos que pusessem seus sapatos do lado de fora das casas. No imaginário da gente simples, era como se Jesus, a cada Natal, se tornasse menino outra vez... Isso, entenda-se bem, somente até as primeiras décadas do século XX.
A título de demonstração, veja-se este breve trecho que apareceu na Revista Escolar, edição de 1º de fevereiro de 1926:
"Noite linda, que já lá se vai tão longe!...
Como é sublime a inocência! Oh! mães, zelai pela candura de vossos filhinhos. Castigai severamente o perverso que procure desvendar aos pequenitos os vícios e pecados deste mundo, não os deixando mais acreditar nos contos de fadas, nos castelos encantados, no menino Jesus que lhes põe doces e brinquedos nos sapatos..."
Fica subentendido, no entanto, que quem escreve coloca essa crença no Menino Jesus que traz presentes em pé de igualdade com fadas e castelos encantados, o que, naturalmente, não adiciona muito mérito religioso ao caso, mas isso já outro assunto.
Resta ainda saber se tal ideia, digamos, aparentemente ingênua, tinha algum uso comercial. Adivinhe! Pois veremos já um exemplo que, para mim, é verdadeiramente emblemático. Na edição de 11 de dezembro de 1914 de A Cigarra, apareceu um anúncio de página inteira, do qual extraí um parágrafo decisivo:
"Os presentes, com que Jesus costuma contemplar as suas inúmeras protegidas, encontram-nos os papás, como se vê no clichê abaixo, num riquíssimo sortimento da Casa Lebre, que as criancinhas poderão obter, se souberem convencê-los, com toda a ternura das suas almas meigas, a visitá-la."
Ora, dificilmente alguém verá propaganda mais explícita: Jesus traz presentes para as crianças que protege (às outras, subentende-se que não), desde que os pais façam a compra do brinquedo na loja citada - devendo os pequenos, para isso, usar toda a sua capacidade de convencimento. Já vi muita coisa neste mundo, mas tamanha falta de sutileza surpreende até a mim! E, se você ficou curioso para saber o que havia na loja, vai abaixo o citado clichê, exibindo o sortimento de brinquedos então disponível.


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domingo, 5 de dezembro de 2010

1918, o ano em que a humanidade quase enganou São Nicolau

Era o ano de 1918 - que, como todo mundo sabe, marcou o fim da "Grande Guerra", como então se dizia, e que nós usualmente chamamos de Primeira Guerra Mundial. Era o ano de 1918, era dezembro, chegava o Natal. Crianças dos mais diferentes lugares deviam andar à espera de seus presentes. E eis que uma revista da época descobriu que São Nicolau havia sido enganado pela gente da Terra, acabando por preparar os presentes errados. Deixo falar a própria revista:
S. Nicolau, conforme apareceu
em A Cigarra de 24/12/1918
"S. Nicolau, que é um bom velho pachorrento, selecionou cuidadosamente a sua quinquilharia, reservando para a distribuição à pirralhada da Terra apenas aqueles que melhor lhe soubessem ao paladar militarizado. Proveu-se de minúsculos artefatos bélicos [...]: - canhões e soldadinhos de lata, aeroplanos, naves de guerra, submarinos, telégrafos sem fio, trincheiras, retiradinhas estratégicas, quarteizinhos-generais, obuseiros, gases asfixiantes, comunicadinhos oficiais, imperadores, presidentes de república e de conselhos, ases de aviação e toda a longa lista de condimentos com que se prepara uma guerra moderna, reduzidos à proporção de brinquedos infantis..." (*)
Você, leitor, percebe com facilidade todo o clima da guerra retratado nesse parágrafo. Mas acontece que a 11 de novembro de 1918 a Guerra formalmente acabou. Com isso, os interesses dos meninos também mudaram - ao menos é o que diz o articulista:
"E, afinal, agora, nas vésperas da sua chegada, com esse escolhido carregamento, eis que a humanidade se transforma inesperadamente, cuidando apenas de se preparar para uma paz duradoura!... S. Nicolau não encontrará já dois petizes a quem tentem os bonecos guerreiros que ele lhes traz. O gênero passou da moda. Ninguém mais os estima. Para obter algum sucesso nesta sua próxima viagem, o santo teria de alijar toda a sua carga arrierée e procurar um stock de outros brinquedos, pelos menos maximalista ou bolchevistamente feitos... Qual! desta vez, os homens enganaram a S. Nicolau!"
Não, o enganado foi o articulista. Não sei se a criançada de 1918 mudou suas preferências, mas posso assegurar, sem receio de erro, que a humanidade em geral continuou a mesma. Não houve nenhuma paz duradoura (os anos que se seguiram são, não por acaso, chamados de "período entre-guerras"), e a conflagração seguinte, a Segunda Guerra Mundial, foi desmesuradamente pior que a precedente. Os brinquedos bélicos, reais ou virtuais, continuam a ser muito atraentes e estão por toda parte.
Estamos em dezembro de 2010. Que terá S. Nicolau reservado para as crianças este ano? Pelo andar da carruagem, as preferências parecem ser por vazamentozinhos de informações confidenciais, ameaçazinhas de guerra, debatezinhos eleitorais, construçõezinhas de armas nucleares, corrupçõezinhas, discursozinhos, renunciazinhas, apedrejamentozinhos, conferenciazinhas de cúpula... Estão fora de moda as honestidadezinhas, decenciazinhas, responsabilidadezinhas, e vai por aí. Você tem mais alguma ideia? Deixe uma dica para S. Nicolau!

(*) A CIGARRA, 24 de dezembro de 1918.


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quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Jornal das Senhoras - Publicação de mulheres para mulheres em um Brasil quase analfabeto

Em primeiro de janeiro de 1852 circulou o primeiro número do Jornal das Senhoras, cujas linhas iniciais diziam:
"Redigir um jornal é para muitos literatos o apogeu da suprema felicidade, já sou Redator, esta frasezinha dita com seus botões faz crescer dois palmos a qualquer indivíduo.
No círculo ilustrado o Redator é sempre recebido com certo prestígio do homem que em letra de imprensa pode dizer muita coisa, propícia ou fatal a alguém.
Noutra roda de gente que considera o progresso do gênero humano como uma heresia, e os literatos como uma casta de vadios, porque entendem que se possa cavar com uma enxada, porém o trabalho intelectual é para essa gente uma alocução em grego; e portanto o Redator é... é um vadio mesmo, um ente inútil.
Ora pois, uma Senhora à testa da redação de um jornal! que bicho de sete cabeças será?" (¹)
Seria, sim, porque no Brasil do século XIX ler era coisa para poucos; escrever, já nem se fala. Isso para os homens, a quem, pensava-se, até por interesse econômico, havia uma certa obrigação de desasnar. (²) Que dizer das mulheres?
Os dados são de arrepiar os cabelos. Veja, leitor, por si mesmo, os índices de analfabetismo na segunda metade do século XIX e início do século XX. Começamos com a população masculina:

ANO DE 1872
População masculina alfabetizada..................................1.013.055
População masculina analfabeta.....................................4.110.814 (80,2%)

ANO DE 1890
População masculina alfabetizada..................................1.385.854
População masculina analfabeta.....................................5.852.078 (80,9%)

ANO DE 1900
População masculina alfabetizada..................................2.726.621
População masculina analfabeta....................................6.132.905 (68,9%)

ANO DE 1920
População masculina alfabetizada.................................4.430.088
População masculina analfabeta...................................10.973.750 (71,1%)

Agora os dados relativos à população feminina:

ANO DE 1872
População feminina alfabetizada...................................551.426
População feminina analfabeta.....................................4.255.183 (88,5%)

ANO DE 1890
População feminina alfabetizada..................................734.705
População feminina analfabeta....................................6.361.278 (89,6%)

ANO DE 1900
População feminina alfabetizada.................................1.701.060
População feminina analfabeta....................................6.836.848 (80,1%)

ANO DE 1920
População feminina alfabetizada.................................3.023.289
População feminina analfabeta...................................12.168.498 (80,1%) (³)

Uma rápida consideração desses números nos mostra que o analfabetismo era absurdamente alto no Brasil da virada do século, independente do sexo. Não podemos deixar de considerar que os recenseamentos da época eram bastante precários, nem podemos omitir o fato de que a imigração intensa contribuía para fazer flutuar os índices de alfabetização. Ainda assim, se comparados aos índices de países vizinhos (Argentina e Uruguai, por exemplo), nas mesmas ocasiões, os do Brasil são absolutamente escandalosos. E, a despeito disso, é incrível como o progresso na escolarização era lento. Por quê?
Há que se ter em conta uma vasta gama de fatores, dentre os quais podemos considerar pelo menos dois: a maioria da população era rural, e não havia quase escolas "na roça", além do fato de que preconceitos de gênero impediam que meninas frequentassem as escolas existentes, muitas delas, aliás, só aceitando mesmo a matrícula de meninos. A chamada "coeducação dos sexos" era coisa restrita a umas poucas escolas estrangeiras que se haviam estabelecido no país. Conheço uma senhora, já quase centenária, que até hoje chora por não ter podido estudar. Os meninos da roça iam de charrete para a cidade próxima, onde havia uma escola, mas ela, uma menina, foi proibida pelos pais de ir, porque se considerava uma indecência que andasse em companhia dos guris.
Diante disso, leitor (e retomando o assunto do início da postagem), era mesmo uma loucura que alguém, em 1852, tivesse a ousadia de lançar uma revista para o público feminino (havia tão poucas leitoras possíveis!), principalmente tendo uma mulher como redatora. O Jornal das Senhoras circulou entre 1852 e 1855. Nada mal, se considerarmos que muitas publicações destinadas ao público masculino tinham vida muito mais breve. E, para sua diversão, vai aqui um pequeno trecho publicado há exatos 155 anos, no dia 2 de dezembro de 1855, tendo como título "Importância do Número 4"
"Certo dia, o quarto da semana, segundo conta o Corsaire, discutia-se em casa do Sr. Quatromães de Quiney sobre a importância dos números: uns davam a palma ao nº 3, outros ao nº 7. Enfim o Sr. Quatro-barbas levantou a voz e pleiteou a causa do nº 4. E na verdade não temos nós os 4 Evangelistas, os 4 pontos cardeais, os 4 filhos de Aymon, os 4 membros, as 4 idades da vida, as 4 partes invariáveis do discurso, as 4 estações, os 4 naipes no baralho de cartas e os 4 mosqueteiros de Alexandre Dumas? Além disso, não se acha provado que César morreu 44 anos antes da vinda de Cristo, que também morreu no 4º ano da ducentésima olimpíada?
Ia esquecendo os 4 elementos, com que os físicos modernos não se têm querido contentar, depois as 4 partes do mundo, a que os nossos geógrafos anexaram sem nosso consentimento uma quinta parte; há ainda o vinagre dos 4 ladrões. Os Cristãos têm as 4 têmporas, sem falarmos das nossas carruagens, que têm 4 rodas, dos animais que as puxam que têm 4 pés e de nossas mulheres, que às vezes fazem o diabo a 4, com o que, leitoras, não vos agasteis, de sorte que nos façais descer os degraus de vossa casa 4 a 4."

Expediente do primeiro número do Jornal das Senhoras, 1º de janeiro de 1852

(1) Ao que tudo indica, o Jornal das Senhoras foi a primeira publicação brasileira que, voltada para mulheres, tinha uma mulher como redatora.
(2) Desasnar foi, durante muito tempo, particularmente no período colonial, expressão corrente que designava o aprendizado de leitura, escrita e um pouco de aritmética.
(3) EDUCAÇÃO - Órgão da Directoria Geral da Instrucção Pública e da Sociedade de Educação, de São Paulo Volume 1, p. 101.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Mulheres no mercado de trabalho e questionamentos sobre a inteligência feminina

Se observarmos a História do Brasil, verificaremos que, em se tratando de mulheres pobres ou escravas, nunca houve muito questionamento quanto à sua óbvia utilização como mão de obra, fosse o país uma colônia ou, já nação independente, império. O mesmo pode ser dito em relação à mulher imigrante. O diferencial está em relação às mulheres de uma certa posição social e econômica, do que poderíamos talvez chamar de "elite branca" (com milhões de aspas). Dessas, esperava-se, em geral, que fossem essencialmente "esposas e mães", repetindo o suposto modelo de incontáveis gerações, ou seja, contribuindo para preservar o status quo.
Mas, você que se interessa por História, sabe muito bem que tudo muda. E, nesse sentido, a mudança veio, ainda que a reboque, no Brasil da primeira metade do século XX. A Primeira Guerra Mundial foi, na maior parte da Europa e nos Estados Unidos, um marco decisivo em termos de inserção da mulher no mercado de trabalho. Compreende-se: por estarem os homens no front, havia vagas precisando, desesperadamente, de que alguém as ocupasse. Com o fim do conflito, pelo menos no caso dos Estados Unidos, a expansão econômica de parte dos anos vinte garantiu que o processo não fosse revertido. E, se a crise pós 1929 significou o fim de muitos postos de trabalho tanto para homens como para mulheres, a subsequente eclosão da Segunda Guerra Mundial consolidaria a atuação profissional das mulheres. Pelo menos, na parte mais industrializada do planeta.
Por aqui a coisa corria com uma certa desconfiança, num ritmo, digamos, mais lento. Mas acontecia. O que suscitava, na imprensa, vez por outra, alguma referência maldosa, pelo menos segundo o julgamento a partir de nossas concepções atuais. Quer ver? Vão aqui duas "anedotas", uma publicada em 1918 e outra um ano após, em 1919:

"- Escute, meu caro, ficarei contentíssima de me tornar sua esposa, mas com o que não me conformo é com deixar o meu emprego. Atualmente eu ganho trezentos mil réis por mês.
- Não, não, minha querida, não precisa deixar emprego... Assim viveremos melhor...
- Por quê?
- Eu deixo o meu. Eu ganho somente 150!" (¹)

Vale a observação de que, na época, muitos porta-vozes do conservadorismo argumentavam que, se as mulheres trabalhassem fora de casa, seria o fim do casamento, e chegavam até a, de certa forma, ameaçar as jovens com esse "fantasma"... Curiosamente, as mulheres pobres trabalhavam há muito tempo, e nem por isso haviam deixado de se casar. É fato consumado que o discurso conservador tende a ganhar força em épocas de estagnação econômica, perdendo parte de seu sentido em momentos de exuberância do mercado de trabalho. Mas vamos adiante. Segunda anedota:

"Um esfarrapado subiu a um primeiro andar, onde está instalado um consultório médico. Bateu à porta, e veio abrir-lha uma senhora.
- Ó minha senhora! era uma grande caridade que me fazia, se me pedisse, para mim ao sr. doutor, um par de calças velhas, que já não lhe fizessem faltas!
- O sr. doutor sou eu, respondeu, sorrindo, a médica." (²)

Ah, leitor, mas isso é leve. Aberração mesmo é isto aqui:


Olhe, leitor, e olhe bem.  Tem alguma ideia sobre o que seja essa engenhoca? Vou ajudá-lo. Diz a legenda:
"Aparelho destinado a medir a capacidade cerebral das mulheres." (³)
Sim, você leu corretamente. Não tenho mais nada a dizer.

(1) A CIGARRA, 24 de dezembro de 1918.
(2) A CIGARRA, 1º de dezembro de 1919.
(3) A CIGARRA, 1ª quinzena de novembro de 1932.

Observação importante: Comentários de caráter sexista estão, desde já, polidamente rejeitados.



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domingo, 28 de novembro de 2010

Futebol no Brasil no início do Século XX - Jogadas um pouco desastradas

Chega-se hoje, leitor, à última postagem desta série sobre futebol no Brasil no início do século XX, na qual veremos umas poucas jogadas um tanto estranhas. Nada de ilusões - esses lances desastrados não eram apanágio apenas dos primeiros futebolistas. Basta ter a paciência de assistir a qualquer partida de equipes menos brilhantes e veremos coisa parecida. Mas vamos às  três fotos, que ocuparam toda uma página em A Cigarra, edição de 29 de agosto de 1914:


Vê-se, antes de mais nada, o título: "As Peripécias do Foot-Ball". Dizia a legenda: "Interessantes instantâneos tirados no Velódromo Paulistano, por ocasião dos "matches" disputados pelos diversos clubs filiados à "Associação Paulista dos Sports Athleticos", com a "Squadra Representativa Italiana" e nos quais se apreciam curiosas posições."
Já fizemos referência em postagem anterior à visita da Squadra Representativa Italiana ao Brasil. Resta, numa breve análise, constatar que, se o futebol crescera muito desde o primeiro campeonato paulista (em 1902), a ponto de ocupar páginas inteiras de revistas importantes, inegavelmente ainda despertava um certo estranhamento, ao menos em parte do público, pelas jogadas algo bizarras. Mas não estaria aí um pouquinho da graça do esporte?


quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Futebol no Brasil no início do Século XX - Corrida de touros?

É verdade que o público estava, no início do século XX, acostumado a atividades esportivas tais como remo, canoagem, esgrima ou hipismo, nas quais havia pouco ou nenhum contato físico; é verdade, também, que o futebol, com seus praticantes disputando cada jogada intensamente e com  muito contato, podia causar alguma estranheza nas plateias menos habituadas à modalidade. Todavia, o que lemos nesta pequena notícia que transcrevo, a seguir, dá uma ideia do que podia andar acontecendo em algumas partidas. Veja, leitor, começa como quase todas as notinhas futebolísticas da época:
"O match São Bento versus Ypiranga atraiu ao Velódromo numerosa e seleta concorrência.
Tratava-se do encontro entre duas equipes poderosas e havia dúvida quanto ao resultado. O match ia dar trabalho aos torcedores. Durante todo o jogo os dois clubs se portaram valorosamente. Foi uma constante alternativa, em que a vitória pairou ora sobre um, ora sobre outro club. O resultado foi um empate entre as duas equipes. Durante o match, os jogadores que mais se distinguiram foram: do São Bento, Irineu, José Pedro e Montenegro; do Ypiranga, Friedenreich, Alencar e Xavier. Este último podia ter sido o maior auxílio para a sua equipe, se abandonasse o jogo pessoal, que é pouco produtivo."
Não, não acaba aqui. Leia mais:
"Quanto aos incidentes desagradáveis dois dois últimos matches estamos certos que não mais se repetirão.
É preciso não permitir que o jogo de foot-ball se transforme em corrida de touros." (¹)
Corrida de touros? Quem escreveu em 1914 não cuidou em dizer o que teria motivado essa observação, já que o assunto devia ser voz corrente - nós, em 2010, é que não sabemos o que realmente aconteceu. Teria sido algum desentendimento entre torcedores? Ou a "tourada" teria corrido solta dentro das "quatro linhas"?
Bem, não temos certeza, mas podemos ao menos conjecturar o que significaria, logo no início da notícia, dizer que o match atraiu "numerosa e seleta concorrência". Talvez fosse um modo de dizer que, nas partidas anteriores, houvera problemas porque o público não era adequado... Ou seria ironia?
Esses fatos davam sobejos motivos aos detratores do futebol. Lima Barreto, que já mencionei em uma postagem anterior, escreveu:
"Nos bondes, nos cafés, nos trens não se discutia senão futebol. Nas famílias, em suas conversas íntimas, só se tratava do jogo de pontapés. As moças eram conhecidas como sendo torcedoras de tal ou qual clube. Nas segundas-feiras, os jornais, no noticiário policial, traziam notícias de conflitos e rolos nos campos de tão estúpido jogo; mas, nas seções especiais, afiavam a pena, procuravam epítetos e entoavam toscas odes aos vencedores dos desafios." (²)
E mais:
"Sendo assim, o nosso Conselho Municipal derrama-se, esparrama-se, derrete-se em favores aos moços de mais de quarenta anos que se dão ao sacrifício de dar pontapés numa bola, para desenvolvimento dos respectivos mollets e gáudio das damas gentis que, assistindo-lhes as performances aprendem ao mesmo tempo o calão dos bairros escusos, com cujos termos os animam nas pugnas. É verdade que essas singulares vestais dos nossos modernos coliseus, às vezes, engalfinham-se no correr da luta. É que elas têm partido: uma é pelo leão do Atlas e a outra é pelo retiário." (³)
E com esse engalfinhar-se das damas (ou seriam vestais?), termino a postagem, apenas dizendo que Lima Barreto, que morreu em 1922, não viu quase nada em se tratando de mau comportamento de atletas e torcedores. Não viu o público de estádios completamente lotados a berrar contra as respeitáveis mamães dos árbitros, dos atletas e dos treinadores, não viu torcidas em fúria invadindo gramados, cercando ônibus de jogadores ou atirando pedras nos adeptos de outros times, não viu tiroteios às portas das praças de esportes, não viu jogadores demonstrando, para agredir oponentes, habilidades dignas de outras modalidades. Teria ficando assombrado com tudo isso. Talvez esboçasse um "não falei?".
Mas também não viu o congraçamento de países, em muitos casos adversários em tudo o mais, disputando civilizadamente competições esportivas, não viu o papel educativo que as atividades esportivas desempenhariam, nem mesmo a importância que o futebol acabaria tendo, no Brasil, em termos de construção de algum tipo de identidade nacional, por frágil que seja. Como em quase tudo, temos pelo menos dois lados nessa história, é apenas uma questão de escolha e ponto de vista.

(1) A CIGARRA, 15 de junho de 1914.
(2) LIMA BARRETO. Marginália
(3) LIMA BARRETO. Vida Urbana  - publicado originalmente em ABC, 26 de agosto de 1922.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Futebol no Brasil no início do Século XX - Os uniformes dos jogadores

Se, na postagem anterior, vimos os trajes usados pelos torcedores, nesta trataremos dos uniformes com que os atletas desfilavam suas habilidades a cada partida. Não, não imagine as atuais grifes esportivas (que, diga-se de passagem, demoraram a ter suas marcas estampadas nas camisas e demais peças do vestuário típico da modalidade); ainda assim, um "estilo" estava claramente a desenvolver-se. É só observar:


"O team do Fluminense Foot-Ball Club que disputou no Velódromo desta capital, um match interestadual com o Club Athletico Paulistano, vencendo-o por dois goals a um." (¹)


"Aspectos do Velódromo Paulistano, por ocasião de um dos matches disputados entre a "Squadra Representativa Italiana" e um dos clubes filiados à Associação Paulista dos Sports Athleticos. Vê-se, no centro, o "team" italiano." (²)


"Instantâneos tirados no Velódromo Paulistano por ocasião dos últimos matches disputados entre a "Squadra Representativa Italiana" e os clubs filiados à Associação Paulista dos Sports Athleticos. Vê-se no centro o valoroso scratch Paulistano e Scottish Wanders, que bateu o team italiano duas vezes, a última das quais por cinco a um." (²)


"O team do "Torino Foot-Ball Club", que se bateu, nesta capital, com os clubs filiados à Liga Paulista de Foot-Ball, saindo vencedor em todos os "matches" que disputou aqui." (²)

Eis aí, leitor, o fato de que, em 1914, quando vir da Europa ao Brasil significava, necessariamente, uma demorada viagem de navio, estavam algumas equipes brasileiras a jogar partidas internacionais, recebendo a visita de times importantes, com resultados não de todo maus, isso sem falar dos jogos entre equipes de diferentes Estados, lançando as bases de famosas rivalidades que ainda persistem. Ah, quanto aos uniformes, é bom saber que, pouco a pouco, os calções foram ficando mais curtos, até que, no início da década de 1990, com a introdução do uso sob o calção de uma bermuda térmica colante, chamada cool-flex (que poderia evitar lesões musculares), esse encurtamento foi detido, fazendo com que os calções voltassem a ter o comprimento próximo aos joelhos dos jogadores. Nesse caso, além de estética, a mudança foi também tecnológica, como muitas outras que ocorreram nas camisas, meiões, chuteiras e equipamentos de proteção, resultando em aperfeiçoamento das condições para a prática do esporte.

(1) A CIGARRA, 15 de junho de 1914.
(2) A CIGARRA, 29 de agosto de 1914.