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quinta-feira, 24 de junho de 2010

Não atirem um pau no Gato de Botas!

O Gato de Botas,
gravura de Gustave Doré (*)
Há muitos e muitos anos... Eu adorava ler contos de fadas. Gostava especialmente (até hoje não sei o motivo) d'O Gato de Botas, uma historinha bem instrutiva.
Veja só, leitor: Crispim, o mais novo dos três filhos de um moleiro, recebe como herança um Gato que usa botas. Os dois irmãos mais velhos, que haviam herdado, respectivamente, o moinho e o burro, ficaram em boas condições para prover o próprio sustento, mas Crispim se lamenta, decepcionado, supondo que o bichano lhe é absolutamente inútil. Está, porém, completamente enganado, pois o gato, muito habilidoso, acaba fazendo com o que o rapaz se case com a filha do rei, para, finalmente, reinar em seu lugar. Narração inocente? Nem tanto.
Em primeiro lugar, e sem discutir eventuais interpretações subjacentes à narrativa, o Gato engana o rei seguidamente, dizendo que os presentes que lhe traz são enviados pelo "Marquês de Carabás". Segue enganando, ao propor que os camponeses digam ao rei que as terras por onde passa, ao percorrer o país, pertencem ao mesmo supracitado Marquês. Mente, dizendo que Crispim foi atacado por ladrões, que roubaram sua roupa e o jogaram no rio com a intenção de matá-lo. E por aí vai, mas não é só.
Que rei é esse que se deixa enganar por um gato? Que rei é esse que desconhece os próprios domínios? Bela lição para as crianças sobre a autoridade governamental. Quer mais? Tudo o que o gato faz sucede porque seu amo, cansado de procurar trabalho, lhe diz que seu sonho é ser rei. Ora, só se pode concluir que ser rei é ótimo porque um governante vive muito bem e não precisa trabalhar!
Quem acha que tais imposturas são coisa apenas d'O Gato de Botas, engana-se e muito. O respeito aos mais velhos é amplamente propalado pelo lobo que engana e ataca a vovó, lobo esse que em seguida é ecologicamente assassinado pelos caçadores, Cinderela chega a ser princesa não por esforço próprio, mas por obra da fada-madrinha, a princesinha é chantageada pelo sapo, primeiro para levá-lo ao quarto, depois para beijá-lo...
É por isso que os contos de fadas são deliciosos e, embora haja quem queira reescrevê-los, tornando-os politicamente corretos, percebe-se que essas investidas editoriais em geral não são muito bem sucedidas, mesmo porque travam uma batalha inglória contra a natureza humana. Gostamos de ambientar nossos contos em tempos remotos (ótimo, sei de muita gente que se interessou por História Medieval por causa deles), realizamos através deles nossas fantasias que, na vida real, são impossíveis, mas não somos tolos a ponto de supor em nós mesmos uma perfeição que não temos, embora aceitemos, candidamente, chamar os contos de fadas de histórias infantis.
Há algum tempo vi um guri ser repreendido pela mãe que insistia para que cantasse "Não atire um pau no gato", em lugar da versão tradicional que você, leitor, conhece muito bem. Diga-me, quem já viu alguém tiranizando algum gato por causa da tal música? Pois eu não vi, e o fato de que a criançada continue a cantar e os felinos proliferem como sempre mostra que ninguém sai por aí a matar gatos a pauladas só porque cantou algum dia "Atirei um pau no gato-tô..." Como vê, estamos diante de profundas reflexões!

(*) HOOD, Tom. Fairy Realm. London: Ward, Lock, and Tyler, 1865. A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Passado real e imaginação

Pense bem, leitor, e tente adivinhar de quando e de onde é esta foto. Enquanto pensa, continue a ler.
Ou o "passado real" é uma categoria que sequer existe de fato (porque não passa de imaginação) ou, se existe, não está ao nosso alcance, simplesmente porque não temos a capacidade de ir e vir no tempo, por mais que sonhemos com essa possibilidade, conforme a vasta bibliografia da ficção científica o atesta. Vivemos em uma persistente recusa à nossa condição mortal, como se algo em nós dissesse que não é para isso que viemos à existência. O que chamamos de passado não é, pois, o "passado real", mas uma combinação de vestígios materiais, de conhecimentos obtidos através de pesquisa documental, de inferências e... de fantasias. Sobre esse último item, valem algumas considerações.
Pois bem, assumir que uma certa dose de fantasia faz parte de nossa concepção do passado pode parecer um golpe muito pesado nas pretensões à estrita objetividade do conhecimento científico, mas a História não vem a ser menos ciência por causa disso e, talvez, seja exatamente o contrário, na medida em que essa dimensão humana é devidamente absorvida, estudada e respeitada, dentro das características próprias que sua metodologia impõe. Então, convém dizer que o treinamento profissional do historiador pode minimizar a interferência de fatores subjetivos na interpretação histórica, ainda que seja quase impossível extirpá-los completamente. Como já disse, insistir nisso seria lutar contra a natureza humana.
Vamos exemplificar essa questão do "componente fantasia" em nossa visão do passado:
1. Por que, para a maioria das pessoas, a Idade Média é sinônimo de belíssimos castelos, princesas encantadas e príncipes meigos e gentis - por mais que as pesquisas neguem essas ideias?
2. Por que a monarquia ainda exerce um fascínio tão grande, mesmo em países que, em seu processo político, já a abandonaram há muito tempo?
3. Por que até mesmo em países que, dentro de sua história como nação independente, jamais foram governados por uma monarquia, há uma tendência a tratar certas famílias como uma espécie de realeza? (Considere o caso dos Kennedy nos Estados Unidos).
4. Por que certos episódios, que comprovadamente não aconteceram ou, se aconteceram, não foram como geralmente se diz, continuam a ser contados às novas gerações como verdades incontestáveis?
Paremos por aqui. Tire você mesmo suas conclusões.
A propósito, de quando e de onde é a foto? Talvez você tenha se deixado levar pela fantasia, e tenha chegado à conclusão de que se trata de alguma paradisíaca cidadezinha do interior, lá pelos anos 30 ou 40 do século XX. Acertou! Mas só um pouquinho.
Fiz essa foto no último domingo, na simpática cidade de Amparo (SP), que antes da grande crise de 1929 foi um verdadeiro centro de produção e exportação de café. Hoje tem atividade industrial importante, mas o centro histórico guarda locais expressivos dos tempos dourados da hegemonia cafeeira. Na foto está a Catedral de Nossa Senhora do Amparo, que foi consagrada como igreja matriz em 1879, e vale bem uma visita.
Evidentemente, editei a foto, para que parecesse antiga. Veja aí ao lado o original, só pra comparar.


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