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quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Os supersticiosos romanos e a crença em presságios

Os antigos romanos (como muitos outros povos, e não só do passado) tinham a mania de querer adivinhar o que é que o futuro lhes reservava. Para isso, contavam com áugures, arúspices e outras figuras sacerdotais que, pela observação das vísceras de animais sacrificados, do voo dos pássaros e de outras coisas mais, tinham a pretensão de fazer saber aos crédulos cidadãos da poderosa Roma quais eventos estavam à sua frente.
Pois bem, leitores, há um episódio engraçado, e é até difícil acreditar em sua autenticidade, mas que, verdade ou não, dá uma boa medida do que eram as crendices romanas em presságios. Lá vai, então.
Houve um comandante romano que, antes de ir a um combate, resolveu consultar os frangos sagrados (sim, havia mesmo frangos sagrados em Roma, e eram sustentados pelo Estado). Sucede que, diante do alimento que lhes foi oferecido, as aves não mostraram o menor apetite (pior para elas, como se verá). Ora, esse fato era considerado um presságio horrorosamente desagradável. Que fazer?
A saída encontrada pelo pragmático comandante foi bem pouco ortodoxa, em se tratando de respeito às tradições (coisa muito valorizada em Roma): mandou que as aves fossem lançadas ao mar, já que, se não tinham fome, talvez quisessem água...


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terça-feira, 26 de outubro de 2010

Dos frangos sagrados ao polvo Paul: a previsão do futuro através da observação do comportamento dos animais

"A interpretação dos sonhos tem merecido desde muito tempo sacerdotes especiais, mas particulares quase clandestinos não eram como aqueles áugures e arúspices de Roma, respeitados e oficializados, que prediziam os acontecimentos pelo modo de voar dos pássaros,  pela maneira com que as galinhas e outras aves sagradas comiam os grãos. Contam os cronistas que não havia general que prescindisse de tal horóscopo antes de entrar em batalha."
Lima Barreto, Marginália

Conhecer o futuro sempre foi uma obsessão para os humanos. Limitados a, com sorte, algumas décadas de vida, temos a veleidade de querer saber o que nos sucederá nesse ínfimo tempo de existência. No passado, usavam-se as formas mais bizarras para a elaboração de previsões e,  desde que os profetas acertassem de vez em quando, estavam com a fama assegurada. Isso é válido para a maioria dos povos da Antiguidade.  Havia formalmente exceções -  a Lei de Moisés, por exemplo,  proibia taxativamente o hábito de consultar adivinhos - mas nós bem sabemos que só se proíbe aquilo que acontece ou tem probabilidade de acontecer.
Dentre os métodos mais comuns de previsão encontrava-se, em várias culturas, a observação do comportamento de determinados animais. Os romanos, por exemplo, tinham seus arúspices e áugures, sacerdotes que tentavam decifrar o suposto conteúdo oculto no canto e no voo das aves, examinavam as vísceras de animais oferecidos em sacrifícios e até, por mais divertido que nos pareça, alegavam prever os acontecimentos com base no maior ou menor apetite dos frangos sagrados... Naturalmente as "técnicas" que empregavam para suas profecias eram sumamente complicadas, o que funcionava muito bem para fazer crer às pessoas comuns que somente os verdadeiros especialistas eram capazes de empregá-las com competência.
Está claro que nem todos os romanos eram adeptos de tais adivinhações, e muitos dos mais instruídos até zombavam delas. Mas, segundo Suetônio, Júlio César foi um grande apreciador dos prognósticos, a despeito de, justamente na hora decisiva de seu assassinato, não ter dado a eles a mínima importância, o que pode apontar para o fato de que talvez fosse politicamente correto aparentar considerá-los diante do povo, e nada mais. De qualquer modo, o mesmo Suetônio relata: "Alguns dias antes de sua morte, César foi informado de que os cavalos que havia consagrado aos deuses após a travessia do Rubicão, deixados a pastar livremente, recusavam-se a comer e derramavam muitas lágrimas. Durante um sacrifício, o arúspice Spurina, considerando nefastos os presságios, advertiu-o de um grande perigo por volta dos idos de março. Analogamente, uma pombinha, que trazia no bico um ramo de loureiro e voava em direção à cúria de Pompeu, foi perseguida por um bando de pássaros de um bosque próximo e feita em pedaços." (*)
Bem, leitor, como sabe, durante a última Copa do Mundo de Futebol tivemos a oportunidade de presenciar um verdadeiro renascimento do interesse na suposta habilidade de prever o futuro através do comportamento dos animais - nesse caso específico, através de um polvo de nome Paul. O irritante cefalópode aparentemente acertou todos os prognósticos de jogos que lhe foram solicitados, devorando um mexilhão que se encontrava sob a identificação do país que deveria vencer cada partida. Polvos, porém, não são animais longevos e hoje, para decepção de seus adeptos, foi anunciado o falecimento do animalzinho. Para um ser vivo a quem muitos torcedores quiseram fritar durante a Copa, foi um final tranquilo, coroando dignamente sua vidinha gloriosa. Que descanse em paz. Ruhe sanft, Paul!

(*) De vita Caesarum.


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