Então, leitores, imaginaram que eu iria tratar daquela famosa anedota relacionada à Revolução Francesa, não é?
Mas não, não mesmo. A coisa aconteceu na vila de São Paulo, nos já distantes dias coloniais. Com mais exatidão, em 1638, tempo em que expedições bandeirantes ganhavam força e as autoridades locais faziam vista grossa para quem ia ao sertão capturar indígenas para escravização, ainda que, hipocritamente, sempre se procurasse dar a impressão de que, nessa matéria, as determinações reais eram cumpridas à risca.
Em vereação do dia 11 de setembro, seguindo o procedimento de rotina, os oficiais da Câmara de São Paulo ouviram o que o procurador tinha a dizer, e o escrivão registrou:
Mas não, não mesmo. A coisa aconteceu na vila de São Paulo, nos já distantes dias coloniais. Com mais exatidão, em 1638, tempo em que expedições bandeirantes ganhavam força e as autoridades locais faziam vista grossa para quem ia ao sertão capturar indígenas para escravização, ainda que, hipocritamente, sempre se procurasse dar a impressão de que, nessa matéria, as determinações reais eram cumpridas à risca.
Em vereação do dia 11 de setembro, seguindo o procedimento de rotina, os oficiais da Câmara de São Paulo ouviram o que o procurador tinha a dizer, e o escrivão registrou:
"[...] pelo procurador [...] foi requerido aos oficiais da Câmara que este povo carecia de pão, mantimento necessário, pelo que lhes requeria mandassem pelo alcaide notificar a quem tivesse trigo, desse pão a este povo, o que visto pelos oficiais da Câmara, disseram que fariam diligência para que houvesse pão na vila [...]." (*)Alguns pontos devem ser esclarecidos. Vejamos:
1. Por que faltava trigo
Muitos fazendeiros tiveram, em São Paulo, o cultivo de trigo como parte de suas lavouras para suprir as necessidades da própria família, e, havendo excedente, para venda. Foi assim no Século XVI e em parte do Século XVII. Gradualmente, porém, a produção de trigo sofreu declínio, por razões que já detalhei em uma postagem publicada neste blog em 16 de outubro de 2012, cujo título é Por que se deixou de cultivar trigo em São Paulo. Resumindo a questão, era mais fácil obter boas safras de milho e mandioca, os proprietários de moinhos cobravam taxas altas demais para moer o trigo e os comerciantes de Santos, que distribuíam para outras capitanias o trigo paulista, pareciam estar sempre de acordo em praticar os preços mais baixos possíveis ao comprar o cereal, desestimulando, assim, a produção para venda. Há conjecturas, também, de que mudanças no clima podem ter tornado a triticultura menos vantajosa.
2. A falta de trigo talvez fosse expediente de comerciantes locais para elevar o preço
Acostumados ao excelente pão de trigo, os moradores de São Paulo foram dar queixa à Câmara quanto à falta do produto no comércio local. Não é improvável que alguns comerciantes dispusessem de trigo para vender, mas que o ocultassem para que, alegando sua falta, pudessem elevar os preços (hipótese perfeitamente compatível com o que se fazia em São Paulo, na época, em relação a outros produtos - carne bovina, por exemplo).
3. A ideia era forçar quem tinha trigo a vendê-lo
Quando o procurador requeria que "quem tivesse trigo, desse pão a este povo", não estava, evidentemente, sugerindo distribuição gratuita. Era apenas a linguagem corrente do tempo para significar que não se pusessem obstáculos à venda.
4. O problema seria sanado apenas se fosse conveniente a quem detinha o mando na vila
Finalmente, segundo a Ata, os oficiais da Câmara "disseram que fariam diligência para que houvesse pão na vila". De novo, formalidade na linguagem, segundo o costume. É concebível que, já não tivessem conhecimento do problema? As diligências seriam feitas se houvesse, de fato, interesse na questão. Caso contrário, eram incluídas na Ata, e nada mais poderia acontecer. Não se necessitam muitos esforços para conjecturar quanto aos interesses maléficos e pouco altruístas que estariam ocultos nesse sumiço do trigo e, por consequência, do pão, no comércio incipiente de São Paulo no Século XVII.
(*) O trecho citado da Ata da Câmara de São Paulo correspondente à vereação de 11 de setembro de 1638 foi aqui transcrito na ortografia atual, com acréscimo da pontuação indispensável à compreensão.
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