domingo, 16 de outubro de 2011

Os "Navios Negreiros", Embarcações Que Transportavam Africanos Escravizados

                                                            "Era um sonho dantesco... o tombadilho
                                                             Que das luzernas avermelha o brilho.
                                                             Em sangue a se banhar.
                                                             Tinir de ferros... estalar de açoite...
                                                             Legiões de homens negros como a noite,
                                                             Horrendos a dançar..."
                                                                                           Castro Alves, O Navio Negreiro


"Navio negreiro" era o nome dado a qualquer embarcação que fizesse a famosa "carreira da África", o que significava, nem mais, nem menos, que arrancar gente, obviamente à força, de sua terra de origem, trazendo-a para trabalhar, quase sempre sob tortura, em um ponto distante - o que podia significar o Brasil, as colônias inglesas na América do Norte, até mesmo países europeus, ou outro lugar qualquer.

Interior de um navio negreiro, de acordo com Rugendas (*)
A viagem, por si, já era um enorme pesadelo. A melhor descrição que conheço está em Negras Raízes, do jornalista americano Alex Haley, cuja leitura recomendo a quem tiver estômago e sangue frio suficientes para ir até a última página. Pode-se com facilidade calcular todo o horror da falta de higiene, proliferação de doenças e contato com os corpos dos que não resistiam à travessia do Atlântico, até que fossem "descobertos" e jogados no mar.
Quantos africanos escravizados viajavam em um desses navios? A resposta depende, por suposto, do tipo de navio empregado. Sabemos, por exemplo, que em uma caravela do século XVII podiam passar de cento e cinquenta "peças", pelo que se depreende deste relato de Frei Vicente do Salvador em sua História do Brasil (relato esse relacionado ao contexto das tentativas holandesas de ocupação das regiões açucareiras do Nordeste):
"Em dezenove de abril desta era de mil seiscentos e vinte e seis apareceram na boca desta barra da Bahia, junto ao morro, três naus holandesas de força, uma das quais trazia trinta peças de artilharia grossa e cento e quatro homens de guerra; meteu no fundo uma caravela, que vinha de Angola, de que era mestre Antônio Farinha, vizinho de Sesimbra, por não querer amainar, mas salvaram-lhe toda a gente branca e alguns negros, de cento e setenta que trazia, e os trouxeram onze dias consigo, fazendo-lhes boa companhia (...)."
Entretanto, leitor, o correr do tempo trouxe consigo o desenvolvimento de embarcações maiores, o que significou, consequentemente, que a cada viagem era possível trazer um número mais elevado de escravos, mesmo se considerarmos a proporção dos que nunca chegavam ao destino. Aliás, chega a ser surpreendente o número dos que sobreviviam, diante das condições de transporte. Há, sobre isso, um trecho do diário da Expedição Langsdorff, anotado pelo desenhista Hércules Florence que deixa entrever algo das condições de saúde dos escravos por ocasião do desembarque:
"Numa sumaca chamada Aurora, que fazia viagens de cabotagem, partimos da cidade do Rio de Janeiro no dia 3 de setembro de 1825. O tempo mostrava-se favorável para depressa alcançarmos Santos, 40 léguas a SO; não estávamos, contudo, a cômodo nesse acanhado barco, tanto mais quanto, além das cargas e da bagagem nossa que levava, transportava 65 escravos, negros e negras, recentemente introduzidos d'África e todos cobertos duma sarna, adquirida na viagem, que, exalando grande fétido, poderia nos ter sido nociva, caso durasse mais o contato a que ficamos obrigados e fora a atmosfera calma e parada." (**)

Desembarque de escravos, segundo Rugendas (*)
Ainda que de passagem, cabe observar aqui o péssimo estado dos transportes no Brasil em 1825, ligando a Corte (Rio de Janeiro) à Província de São Paulo (Santos), sem falar no descaso absurdo com questões sanitárias, que podiam afetar toda a população, fosse ela livre ou cativa. Mas, voltando ao assunto principal, não nos esqueçamos de que o tráfico sustentou-se por séculos simplesmente porque era altamente lucrativo - para a Coroa, que cobrava impostos, para os traficantes, mas também para quem, em nossa lógica do século XXI, nos pareceria menos provável - conforme descobrimos por uma observação deixada por Varnhagen:
"O tráfico servia até imoralmente, como ainda em nossos tempos as loterias, a favorecer os estabelecimentos de piedade, concedendo-se a alguns várias preferências para embarcarem por sua conta para o Brasil certo número de peças, em cada ano, antes que outros negreiros." (***)
Em uma irônica e abusiva contradição, seres humanos eram privados da liberdade para o sustento de casas de filantropia. O que mais resta a dizer?


(*) RUGENDAS, Moritz Malerische Reise in Brasilien
Paris: Engelmann, 1835 (Biblioteca Nacional)
(**) FLORENCE, Hércules Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829
Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 1
(***) VARNHAGEN, F. A. História Geral do Brasil vol. 2, 2ª ed.
Rio de Janeiro: Laemmert, 1877, p. 794


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