A crueldade no Brasil Colonial não era restrita ao trato com escravos e outros humanos subordinados à vontade dos senhores de engenho. Os animais de trabalho também sofriam, a começar pelo fato de que não recebiam alimentação apropriada. José Caetano Gomes, em sua Memória Sobre a Cultura e Produtos da Cana-de-Açúcar, publicada no final do Século XVIII, afirmou: "Todos os animais de serviço no Brasil comem no pasto." (¹)
O mesmo autor explicava que os animais eram muito baratos e, por essa razão, os proprietários não davam grande importância a alimentá-los adequadamente - se morriam, eram facilmente substituídos:
"Qualquer engenho tem cem bois e quarenta bestas; como a moagem é no tempo da seca e não há divisão de pastos, e estes foram feitos há trinta, cinquenta e mais anos, e nunca renovados, a erva ou capim que neles nasce não tem substância, o sol a desseca; e os animais cansados e inanidos vão aos brejos, onde veem alguma verdura, e com o capim, que pode ser útil, engolem plantas venenosas, que os matam. Dizem que isto é peste, porém a fome é que lhes faz comer o que é nocivo. Há anos em que a mortandade é tal, que param engenhos de moer." (²)
Depois de sugerir que os animais poderiam ser alimentados com "cará, batata, mandioca, guandu, abóbora e outras muitas coisas" (³), José Caetano Gomes dizia, ainda, que a falta de cuidado não estava restrita à alimentação. Havia mais:
"Ainda não vi um curral calçado, nem coberto; enterrados os bois até à barriga é o comum. Depois de passarem assim a noite, vão para o carro em jejum; trabalham muitas horas, saem esfalfados, e a fome os faz devorar o que encontram." (⁴)
A consequência prática disso é que animais, de costume muito dóceis, tornavam-se extremamente rebeldes:
"Tenho visto gastar horas a meter bois em carros, e bestas nas almanjarras dos engenhos; se estes animais saíssem das estrebarias com a barriga cheia, iriam para o serviço mansamente, não haveria marradas nem coices, o que evitaria acidentes, que sempre há, além do adiantamento do trabalho, que a sua braveza estorva." (⁵)
A ganância desmesurada explica o fenômeno. Porém, que homens eram esses, capazes de tanta crueldade?
A consequência prática disso é que animais, de costume muito dóceis, tornavam-se extremamente rebeldes:
"Tenho visto gastar horas a meter bois em carros, e bestas nas almanjarras dos engenhos; se estes animais saíssem das estrebarias com a barriga cheia, iriam para o serviço mansamente, não haveria marradas nem coices, o que evitaria acidentes, que sempre há, além do adiantamento do trabalho, que a sua braveza estorva." (⁵)
A ganância desmesurada explica o fenômeno. Porém, que homens eram esses, capazes de tanta crueldade?
(1) GOMES, José Caetano. Memória Sobre a Cultura e Produtos da Cana-de-Açúcar. Lisboa: Casa Literária do Arco do Cego, 1800, p. 80.
(2) Ibid.
(3) Ibid.
(4) Ibid., pp. 80 e 81.
(5) Ibid. p. 81.
(6) Obra de Frederico G. Briggs. O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(2) Ibid.
(3) Ibid.
(4) Ibid., pp. 80 e 81.
(5) Ibid. p. 81.
(6) Obra de Frederico G. Briggs. O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
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