Não sabemos quem foi o primeiro a ter a ideia de enviar algo escrito para alguém, mas temos a certeza de que, na Antiguidade, correspondência era, geralmente, uma questão de Estado, isso porque poucas pessoas sabiam escrever e, portanto, para mandar uma carta era preciso contar com os serviços de um profissional especializado, o escriba. Assim, é graças a isso que sabemos muita coisa sobre o modo de vida e os costumes dos povos antigos, já que ao menos uma pequena parte de toda essa correspondência oficial acabou, de algum modo, sobrevivendo ao tempo e chegando até nossos dias. Não me entenda mal, leitor, mas a súbita decadência do Império Assírio significou a preservação da Biblioteca de Nínive que, não fora esse acaso (feliz para os historiadores, infeliz, lógico, para os assírios), poderia ter desaparecido completamente como a Biblioteca de Alexandria, ainda que seu material básico para os textos, as placas de argila, fosse algo mais resistente que frágeis papiros. E, como é em lugares assim que se encontra a maior parte da correspondência oficial do passado mais remoto, pode-se atualmente ter uma ideia do que era tratado nas antigas cartas enviadas a mando dos poderosos.
Demorou muito tempo para que a correspondência pessoal viesse a ser coisa corriqueira - como já disse, isso dependia da alfabetização tanto de quem escrevia como de quem recebia uma carta. Mas, gradualmente, escrever cartas tornou-se um hábito socialmente importante, enquanto que deixar de responder a uma carta recebida, não havendo motivo forte para isso, veio a ser quebra grave dos códigos de etiqueta. Tão importante foi o crescimento da função social das cartas que o chamado "gênero epistolar" (já possível nos dias dos antigos romanos) ganhou espaço próprio no campo da literatura. Ao longo do tempo surgiram manuais de correspondência, livros com modelos de carta para todos os gostos e propósitos, esperando-se ainda dos professores que ensinassem a seus discípulos a arte da correspondência.
Mas tudo passa. E a era das cartas já ficou para trás, à medida que formas eletrônicas de correspondência, muito mais práticas, velozes e econômicas assumiram seu posto nas relações interpessoais. A despeito disso, conheço muitos jovens que fazem questão de ainda escrever cartas, não por necessidade, mas como um hobby, tendo o cuidado de escolher o papel e a caneta, caprichando na caligrafia e executando todo um ritual ao dobrar as folhas e colocar em um envelope. Ninguém, no mundo ocidental, costuma desejar viver em tendas, tendo que caçar para a alimentação e fazer fogo para cozinhar ou para sobreviver ao inverno. Entretanto, há muita gente que gosta de acampar nos finais de semana. Talvez com as cartas pessoais esteja acontecendo algo parecido.
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