Carros de bois e carroções descem pela estradinha de chão batido. Sacas e mais sacas de café são descarregadas perto dos trilhos e, sem demora, carreiros tocam os animais no rumo contrário. Não há tempo para muita conversa, o trabalho não pode parar.
Depois de uma safra muito boa - inverno ameno, nada de geada, chuvas na quantidade certa - o café havia recebido um beneficiamento rústico, a qualidade e tamanho dos grãos fora verificada e agora, depois de ensacado, é conduzido até a estação ferroviária pequenina que se construíra, há alguns anos, nos arredores da fazenda. Ali, cada saca de café é novamente pesada e conferida. Espera-se o trem, que, geralmente pontual, não deve tardar.
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| Balança em que era conferido o peso do café (²) |
Ouve-se, ao longe, um apito, e outro. Os trabalhadores, cansados e suarentos, já sabem: lá vem a maria-fumaça. O café deve ser alocado nos vagões de carga. Vai para longe, e, depois de vencida a serra, ficará à espera em algum dos enormes depósitos junto ao porto, até que, em navios, atravesse o mar rumo a outras terras.
Encarapitado na cerca da fazenda, um menino observa, à distância, toda a movimentação dos que trabalham. Que saberá, em seus oito ou nove anos, sobre cotação internacional do café, exportação ou concorrência estrangeira? Só tem olhos para a locomotiva que, tanto quanto os trabalhadores, parece ofegante. É o suor de tantas famílias de imigrantes, como a dele, que faz cada cafeeiro se tingir de frutinhos vermelhos que enriquecem o fazendeiro. Pezinhos descalços, tanto esse menino como seus irmãos, todos crianças, têm ajudado os pais e o avô na parte da lavoura que lhes cabe cultivar. A pouca idade nunca é motivo para descartá-los como mão de obra. Escola? Ah, sim, quem sabe no ano que vem...
Com o café nos vagões e mais lenha na locomotiva, o trem se espreguiça para partir. Um apito longo e lá se vai, lentamente, a princípio, e então ganha força. Apertando os olhos, o menino segue a maria-fumaça até que o trenzinho mergulha no horizonte de cafezais. Quando for grande, promete a si mesmo, vai ser maquinista.
(1) Imagem gerada por inteligência artificial.
(2) Pertence ao acervo do Museu Ferroviário de Jaguariúna.
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