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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Algumas causas de doenças e mortalidade entre escravos no Brasil

A mortalidade entre os escravizados no Brasil sempre foi muito alta, inclusive entre aqueles recém-chegados ao continente americano. As doenças contraídas ainda nos porões dos navios em que, amontoados, faziam a travessia do Atlântico, o contato, logo que chegavam ao Brasil, com algumas enfermidades desconhecidas para os africanos e as condições duríssimas a que eram submetidos contribuíam acentuadamente para o número elevado de óbitos. Podia haver diferenças entre as condições de vida dos escravos moradores de áreas urbanas e dos que trabalhavam em fazendas, mas, em maior ou menor grau, a maioria dos cativos era afetada pelas dificuldades inerentes a um  "período de adaptação", se é tal expressão é razoável neste caso.
É fato, porém, que grande parte dos proprietários não dava muita atenção ao estado de saúde de seus escravos, a não ser na hora em que eram comprados. Mas, após a Lei Eusébio de Queirós, de setembro de 1850, que baniu o tráfico de africanos para o Brasil, o temor de ficar sem mão de obra para a lavoura induziu muitos senhores a uma mudança de postura. Passou a haver, pois, quem se interessasse por investigar o que devia ser feito para que os cativos conservassem boas condições físicas. O periódico O Agricultor Brasileiro, nº 4, de 1854, afirmava que, até então, não havia estudos importantes relativos à saúde dos escravos no Brasil:
"A salubridade da escravatura tem sido até hoje tão pouco estudada e aconselhada que raros são os escritos científicos que existem a tal respeito; nem os médicos que exercem a profissão nas fazendas se lembraram ainda de organizar qualquer trabalho que tivesse por fim difundir luzes sobre a higiene e moléstias dos escravos [...]." (¹)
Ainda assim, a mesma publicação levantava algumas causas para as enfermidades que afetavam a população escrava, enfermidades essas que, não poucas vezes, eram letais. Um primeiro fator estava relacionado às  condições de moradia dos escravos, já que as senzalas eram construídas em locais que não favoreciam a higiene - os leitores bem sabem que, para os senhores, o melhor lugar para uma senzala era aquele que tornasse mais difícil alguma tentativa de fuga.
Um outro aspecto a ser considerado era a deficiência na alimentação. Dizia o já citado jornal:
"O gênero de alimentação é também objeto que deve merecer muito particular solicitude dos fazendeiros, pelo muito que ela influi na conservação da saúde e da vida. [...] Sobre este objeto não há entre nós um uso geral: a qualidade de alimentação é diversa em várias localidades, e consiste quase sempre na farinha de mandioca, ou de milho e vegetais. Só o feijão é geralmente usado, e pode-se considerar a base da alimentação em quase todos os lugares, conquanto no Maranhão seja substituído pelo arroz. [...] Em grande número de fazendas, os escravos somente comem a carne de animais que caçam [...]." (²)
Escravo inválido, Século XIX (⁴)
Havia, ainda, a falta de assistência médica, embora esse fosse um problema que afetava não só os escravos, mas a população em geral:
"[...] Muitas léguas se anda por muitas povoações, e por muitas fazendas se passa sem que se encontre um só médico." (³)
Poderíamos, ainda, meus leitores, acrescentar as lesões decorrentes do trabalho penoso, cujos danos eram, não raro, vitalícios, além das doenças resultantes da deficiência no saneamento básico, como eram as relacionadas à contaminação da água, que, todos sabem, não escolhiam suas vítimas apenas dentre os cativos, já que nem mesmo a capital do Império estava livre delas. Nesse sentido, vale lembrar também as epidemias que aterrorizavam a população do Brasil no Século XIX, fosse ela livre ou escrava, fazendo vítimas, independente da origem, condição econômica ou idade. Era o caso, por exemplo, da febre amarela.
Portanto, leitores, a título de conclusão, podemos afirmar que era inegável o impacto das doenças de carência sobre os escravos; todavia, quando o assunto era a deficiência nas condições de saneamento básico e de assistência médica, a população, quer livre, quer cativa, era bastante afetada, até pela escassa difusão de conhecimentos relativos às práticas de higiene que, devidamente aplicadas, trariam melhoria considerável à saúde pública.

(1) O AGRICULTOR BRASILEIRO nº 4. Rio de Janeiro: Typographia de Nicolau Lobo Vianna Junior, 1854, p. 11.
(2) Ibid., p. 12.
(3) Ibid.
(4) O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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quinta-feira, 12 de julho de 2012

Anúncios curiosos das primeiras décadas do Século XX - Parte 3

Uma boa água mineral, na temperatura correta, é sempre coisa agradável. Há quem tenha a sua preferida, levando em conta sabor, composição, pH, e assim por diante e, geralmente, é tida como mais favorável à saúde que a água que se tem ao abrir-se uma torneira comum.
Se você, leitor, vivesse no Brasil do início do século XX, teria, entretanto, boas razões para consumir água mineral, se as suas finanças assim o permitissem, claro. Água tratada, como hoje a conhecemos, era quase inexistente, e poucos lugares tinham uma rede de abastecimento urbano que de fato atendia às necessidades de consumo da população. Tendo de ingerir água de poços e outros reservatórios, muitas vezes contaminados, as pessoas estavam sujeitas a contrair doenças que podiam ser fatais. É exatamente essa a ideia explorada pelo seguinte anúncio de água mineral (*), datado de novembro de 1916:


Parece-me, no entanto, que quem elaborou o anúncio teria cometido um erro, ao não levar em conta o fato de que tifo e febre tifoide não são a mesma coisa. Só a segunda pode, de fato, ser contraída pela ingestão de água contaminada.

(*) CORREIO DA SEMANA, Ano VII, nº 238, 7 de novembro de 1916.


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