quinta-feira, 12 de julho de 2018

Atletas eram repórteres de guerra na Antiguidade

Soldado grego desconhecido (²)
Por favor, leitores, esqueçam, por um instante, as comunicações digitais. Vamos à Antiguidade, aos campos de batalha em que as armas mais comuns eram as espadas, os arcos, as flechas, as lanças, até mesmo as fundas, com que romanos e outros povos arremessavam bolas de chumbo. A comunicação à distância era feita, quase sempre, através de sinais de fumaça. O processo, porém, era trabalhoso, além de afetado por circunstâncias naturais. Sendo necessário enviar notícias exatas, verdadeiras reportagens de guerra, a mídia era outra, um soldado de esplêndida capacidade física, capaz de correr grandes distâncias, e, ao chegar, ter ainda fôlego para fazer o relatório que dele se esperava.
Foi durante as Guerras Médicas (¹) - na iminência de um ataque persa, comandantes gregos procuraram um mensageiro experiente, que, mandado a Esparta, solicitasse ajuda. O escolhido, de acordo com Heródoto (³), foi Fidípides: "Os comandantes enviaram Fidípides, o qual disse que durante a viagem lhe apareceu o deus Pan, e depois de dois dias chegou a Esparta [...]." (⁴)
À vista disso, e supondo que o relato de Heródoto seja verídico (⁵), Fidípides pode ser considerado um mensageiro-soldado-atleta-repórter notável. Plínio, o Velho (⁶), autor romano, entendia ter havido outros ainda mais destacados: "Correndo mil cento e quarenta estádios (⁷) entre Atenas e Esparta em dois dias, Fidípides foi o maior, até que Anistis, espartano, e Filonides, mensageiro de Alexandre Magno, correram mil trezentos e cinco estádios em um só dia [...]." (⁸)
Fidípides, Anistis, Filonides: destes sabemos o nome. Muitos outros foram simplesmente esquecidos. Em alguns casos, as notícias que levaram eram de tanta relevância que chegaram até nós, e, a elas, hoje, chamamos História.

(1) Entre gregos e persas (a quem os gregos, genericamente, chamavam medos - daí o nome atribuído às guerras).
(2)HEKLER, Anton Die Bildniskunst der Griechen und Römer
Stuttgart: Julius Hoffmann, 1912, p. 1
A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.
(3) Século V a.C.
(4) HERÓDOTO, Histórias, Livro VI.
(5) Não parece haver incongruências no relato, que é consistente com as condições reinantes na época. Entre a obra de Heródoto e os acontecimentos relacionados às Guerras Médicas há um intervalo muito curto, e pode-se com razão entender que esse autor sabia do que falava, ou não teria nenhuma credibilidade entre os contemporâneos.
(6) 23 - 79 d.C.
(7) "Estádio" era uma medida antiga que variava de 158,5 a 185 metros
(8) PLÍNIO, Naturalis Historia, Livro VII.
Os trechos citados de Heródoto e Plínio foram traduzidos por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.


Veja também:

2 comentários:

  1. Que perspetiva interessante. Deviam fazer odes a estes atletas.

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    1. Sim, faziam! Alguns eram até homenageados com estátuas.

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